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Como ser – e não ser – um Eike Batista

Eike BatistaDepois de meses de silêncio, em 19 de julho Eike Batista publicou no Valor uma carta aberta, endereçando a virtual quebra de sua empresa OGX e, por contaminação, de todo o “Grupo X”. A carta, bem escrita, tem conteúdo que merece reflexão. Aqui está a minha:

O que não se pode negar

É difícil para qualquer empreendedor, especialmente no Brasil, não empatizar em alguma medida com os argumentos de Eike.

Empreender é correr riscos e, acima de tudo, dedicar uma energia pessoal muito grande na criação de ativos que, em última análise, beneficiam toda a sociedade. Quanto mais ambicioso o empreendimento, maior o risco e mais colossal a energia pessoal demandada pelo projeto.

Eu não tenho dúvida de que foi isto que Eike fez: sonhou grande e dedicou-se imensamente a seu projeto de construir do zero um “império empresarial”. E isto tem mérito, porque toda a economia brasileira – todos nós – também podemos nos beneficiar se suas empresas um dia criarem valor gerando lucro, empregos, petróleo, etc.

O perfil do “maverick”

Não conheço pessoalmente Eike Batista mas, depois de 30 anos trabalhando com empresários, é fácil reconhecer na carta publicada no Valor um perfil que é quase “padrão” de grandes empreendedores.

  • Hiper-atividade – Do mesmo lugar de onde vem uma energia aparentemente inesgotável, sem a qual não seria possível construir o que estes homens constroem, também vem uma imensa dificuldade de refletir mais profundamente sobre o negócio ou processar informações ambíguas. Conhecimento ou desafios que não sejam claros ou intuitivos não são endereçados ou mesmo percebidos.
  • Otimismo – Se a hiper-atividade é o motor dos empresários a la Eike, o otimismo é o combustível. Sua auto-confiança convence investidores a comprarem ações de um business plan (de um “Powerpoint”). Contudo, essa mesma auto-confiança faz com que os empresários-Eike rejeitem aqueles que apontam riscos ou falhas em suas premissas e planos. Quem insiste em prever riscos é visto como “descrente”, ou mesmo como adversário ao plano.
  • Sedução – Não é apenas o otimismo dos “Eike Batistas” do mundo, que encanta investidores, políticos, executivos – enfim, todos aqueles a quem querem “seduzir”. Este “super-poder” de encantar funciona porque o empeendedor apresenta a seus interlocutores uma persona – um “personagem” – quase ideal. Tudo neles – atitude, aparência, locução – projeta confiabilidade, conhecimento e invencibilidade. O que acontece quando, como qualquer ser humano, este “super-homem” erra e se vê em dificuldades? Os “seduzidos” sentem-se traídos, como se tivessem comprado uma obra de arte falsificada e atacam, rancorosos, o herói caído.

É muito fácil ver como a combinação destes três ingredientes pode ser explosiva – propulsionando à frente ou reduzindo a pedaços. Entretanto, sem os mavericks economias não avançam e sociedades não progridem.

Também é fácil ver que a ilusão infantil de super-poderes não é apenas do maverick, mas também dos “seduzidos” – investidores, políticos e público em geral. Avançar a economia, empreendendo e construindo novos ativos geradores de valor envolve grandes riscos e ninguém consegue se blindar contra eles – muito menos o maverick, que sequer se preocupa em tentar.

Ser e não ser

O que alguém com os ingredientes de um Eike Batista pode fazer para, além de amealhar alguns bilhões de dólares e criar um vasto império em algumas décadas, evitar um fim – ou, pelo menos, um embate sofridíssimo – como o que Eike está vivendo?

Obviamente não é o caso de eliminar as três características acima, que criam todo este potencial de realização. Contudo, é preciso temperá-las com seus três antídotos:

  • Ser CDF – Fazer o dever de casa, não apenas o esporte. Cultivar o hábito de analisar diferentes ângulos das oportunidades e problemas. Jogar mais xadrez e pilotar menos carros glamourosos.
  • Cercar-se de gente prudente e inteligente – e ouvi-las! Mostrar a eles que a inteligência que aportam à liderança do negócio é apreciada, mesmo que muitas vezes decida-se correr riscos que eles prefeririam não correr. Estes executivos devem ter conforto de avisar quando o maverick está indo longe demais. Saber tirar o pé do acelerador e protejer as bases do que já se construiu, sabendo que sempre há tempo suficiente para mais uma onda de crescimento, no futuro próximo.
  • Ser tri-dimensional. Resistir à tentação de permitir aos outros a ilusão de que estão na presença de um Super-Homem. Temperar sua persona com a consciência de sua falibilidade – inevitável e iminente. Em outras palavras, ser vulnerável. Talvez o maverick descubra que, por incrível que pareça, esta persona mais próxima da realidade é ainda mais poderosa do que a fantasia de herói.
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