Table Partners

Consultoria de estratégia e liderança

A meritocracia e as universidades americanas

meritocracyEm outro artigo defendemos o ponto de vista, bastante polêmico de que, na seleção do membro da família-empresária a assumir o comando dos negócios, não se deve adotar um ponto de vista estritamente meritocrático.

Sob um bom modelo de governança, fatores como nível de energia e apreço pelo legado da família contribuem mais para o negócio do que um MBA.

Em junho passado, um julgamento da Suprema Corte americana, sobre a admissão preferencial de candidatos negros em universidades, trouxe para o centro das atenções a discussão sobre o ideal meritocrático como norte das decisões da sociedade.

Um excelente artigo da revista New Yorker sobre o julgamento, escrito por Louis Menand, um professor de Harvard, contém diversos trechos que merecem reflexão, sobre a universalidade da meritocracia.

Sentimento de injustiça

O primeiro ponto interessante, endereçado por Louis Menand, é o forte sentimento de injustiça que a admissão preferencial de alunos negros provoca em muitas pessoas (por sinal, tanto nos EUA como no Brasil):

“Elas acreditam que a admissão às universidades não é mais meritocrática, querendo dizer que a seleção não é mais baseada em capacidade e desempenho acadêmico. Minha resposta a estas pessoas (que raramente as satisfaz) é que é óbvio que a admissão às universidades não é meritocrática neste sentido, nem nunca foi. Elas esquecem outros tipos de critérios muito mais ofensivos aos princípios meritocráticos.

O maior escândalo na seleção universitária, do ponto de vista meritocrático, é a preferência dada a atletas, que envolve um número muito maior de alunos do que a seleção por cor. Contudo, ninguém parece se incomodar com a admissão de atletas porque quase todos acreditam (corretamente ou não) que uma equipe esportiva forte contribui para o espírito do campus, valoriza conquistas – mesmo que não sejam acadêmicas – e estimula ex-alunos e outros doadores a realizarem doações para a universidade. 

O mesmo pode ser dito de todos os outros critérios de preferência adotados pelas escolas. Prioridade a filhos de ex-alunos é uma forma particularmente questionável de preferência. Mas pode-se argumentar que ela cria um senso de comunidade através das gerações; mantém a percepção, fidelizadora à instituição, de que cada universidade tem seu DNA particular, intransferível; e incentiva ex-alunos a fazerem doações, beneficiando todos os alunos.

Candidatos com talentos ou realizações excepcionais – artísticas, empreendedoras ou caritativas – que não se refletem nas notas de seus exames, são procurados e admitidos.”

Da mesma forma, empresas não-familiares empregam diversos critérios de admissão a postos-chave, ou mesmo de recrutamento de presidentes, que desafiam o critério de meritocracia. Por exemplo, ter ocupado a mesma posição em outra empresa é um dos critérios favoritos dos head-hunters, quase nunca se dando ao trabalho de investigar, a sério, se o desempenho naquela outra empresa foi satisfatório.

O número muito pequeno de empresas que realizam avaliações anuais formais, 360-graus, deixa clara a subjetividade com que se decidem promoções e movimentações de carreira. Lembro-me de uma empresa francesa, cujo Diretor de RH exaltava a sofisticação e rigor do processo de avaliação e planejamento de carreira, dias antes de uma crise organizacional, provocada por decisões desastrosas de dois executivos, contratados recentemente de uma outra empresa, que desconsideraram, irresponsavelmente, particularidades da estrutura que estavam assumindo.

A maioria das empresas está longe de ter um sistema meritocrático bem implantado em sua organização.

Erro ou acerto?

Um erro, contudo, não justifica outro. O fato de empresas e universidades pecarem cotidianamente contra a meritocracia não faz da preferência dada a alunos de cor ou a membros da família acionista uma decisão acertada. Contudo, segundo Menand:

“De todos os critérios usados para dar preferência na admissão, raça tem, de longe, o argumento educacional mais forte. Fazer faculdade com atletas, filhos de ex-alunos e virtuosi de tuba não forma melhores profissionais, mas ter colegas que não são brancos melhora a educação de alunos brancos e vice-versa.

As pessoas falam de políticas afirmativas como estritamente benéficas aos alunos de cor. Mas elas beneficiam igualmente o aluno branco. Discutir “Huckleberry Finn” em uma sala somente com alunos brancos ou somente negros é totalmente diferente de uma sala com alunos das duas raças. Lidar com esse contato é uma das maneiras como as pessoas aprendem a pensar.”

Da mesma forma, há várias maneiras como o herdeiro da família empresária pode contribuir para o sucesso da organização, tanto quanto para o seu próprio:

  • Priorizando metas de longo prazo, em relação a resultados – e bonus executivos atrelados – de curto prazo
  • Dando sentido concreto – e não apenas perfunctório – aos valores que a família-empresária deseja ver refletidos na empresa
  • Realizando os sacrifícios pessoais e o investimento de energia necessários para crescer qualquer negócio (especialmente no Brasil)

Como dissemos em outro artigo, para dar estas contribuições à organização caráter, ambição e nível de energia são tão importantes quanto uma boa formação.

Vote neste artigoVote neste artigoVote neste artigoVote neste artigoVote neste artigo
Loading...