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Consultoria de estratégia e liderança

Sai Britannica, entra iba

A realidade do mundo digital aos poucos vai alterando a geografia do negócio editorial.

Este mês, duas novidades opostas: a bicentenária Encyclopaedia Britannica anunciou que deixará de publicar a enciclopédia em papel e o Grupo Abril lançou seu varejo online de conteúdo digital – o iba.

O último fruto do iluminismo

A Britannica foi fundada em um bairro boêmio de Edinburgh, em 1768, por um grupo de ‘rogues and chancers‘ (‘vagabundos e vigaristas’, como intelectuais de inclinação iluminista eram vistos na época) em imitação à famosa ‘Encyclopédie’ francesa, de Diderot.

Desde o início a Britannica foi um sucesso e a expansão do império ingles fez dela o “repositório inconteste da soma de todo o conhecimento humano“.

Ironicamente, também desde o início a obra foi vítima de uma pirataria incessante. A primeira enciclopédia americana, Dobson’s Encyclopædia, de 1788, foi copiada quase integralmente da 3a. edição da Britannica. Cópias piratas também eram vendidas em Dublin (Moore’s Dublin Edition, Encyclopædia Britannica), em reprodução exata da Britannica. A pirataria só terminou 140 anos depois, por volta de 1910, quando foi lançada a famosa 11a. edição.

A criação da Britannica foi parte da aventura do iluminismo, um fruto da “idade da razão”. A empreitada de produzir uma enciclopédia reflete uma crença coletiva (e uma aposta) na supremacia do conhecimento, no progresso intelectual e nos avanços sociais (por exemplo: numa classe média disposta a investir uma soma significativa na aquisição de conhecimento).

Gênios e filantropos

Em seus primeiros 60 anos a Britannica mudou de mãos três vezes e aumentou de 3 para 20 volumes.

Dois grupos sentiram-se, desde essa época, atraídos pelo projeto: grandes intelectuais e filantropos – cada um exercendo atração sobre o outro.

Ao longo de seus 244 anos escreveram para a enciclopédia 110 prêmios Nobel e nomes tão notáveis e diversos como: Sir Walter ScottJohn Stuart MillDavid RicardoThomas MalthusJames Maxwell, Thomas HuxleyMilton FriedmanCarl SaganHarry HoudiniAlbert EinsteinMarie CurieSigmund FreudHenry FordLeon TrotskyIsaac Asimov e George Bernard Shaw (escrevendo, não sobre teatro, mas sobre socialismo!).

Publicar o conteúdo de um time como este sempre atraiu muitos donos de fortuna. Um dos primeiros foi o dono da SearsJulius Rosenwald, que comprou os direitos da enciclopédia em 1920 e gastou/perdeu uma fortuna no empreendimento. Desde 1996 o proprietário da empresa é Jacob ‘Jacqui’ Safra, sobrinho do banqueiro Edmond Safra.

Ciclos de modelos de negócio

O especialista em história da Britannica Tom Nairn, da Universidade de  Edinburgh, identificou um padrão de “muitas diferentes fases de sucesso, seguidas de períodos de ‘estagnação auto-satisfeita’, em que a liderança da organização convence-se de que o jeito como as coisas estavam permaneceria para sempre”.

Isso aconteceu no final do século 19, em Londres, e empresários americanos perceberam o que acontecia e, num movimento oportunista, fizeram um take-over da empresa.

“Mas então, duas gerações mais tarde (1950-60s), a mesma coisa se repetiu em Chicago, época em que a operação era um sucesso. Ela sucumbiu novamente a uma espécie de inércia conservadora, num período em rápida transformação, devido à revolução da informação”.

Número de volumes em cada uma das 15 edições da Brittanica e momentos de troca de proprietários do negócio.

Dinossauros de marca forte morrem mais tarde

A aposta no apetite da classe média – primeiro a inglesa, depois a americana – de investir em conhecimento foi vencedora. Seu filho não precisa ler um texto de Freud sobre psicologia para tirar boas notas na escola, mas o prestígio da marca Britannica foi construído sobre esse patrimônio de colaboradores premium.

Paradoxalmente, contudo, somente uma elite de consumidores e intelectuais conheciam o peso dos nomes que assinavam os artigos da enciclopédia. O consumidor médio nunca havia ouvido falar de Freud ou Friedman. O prestígio da marca foi construído pelo endosso informal e invisível dessa fina camada de multiplicadores de opinião.

O especialista em obras de referência Kenneth F. Kister, realizou estudos comparativos da qualidade das principais enciclopédias e concluiu que duas – Colliers e Americana – eram, na década de 1990, melhores do que a Britannica.

Entretanto, a Colliers (a melhor, segundo Kister) deixou de ser editada em 1998 e a Americana em 2006. Como sempre, o “melhor hamburger” não garante a liderança. A força da marca deu à Brittanica uma sobrevida de mais de uma década.

Enquanto isso, ao sul do equador…

Talvez porque comprar livros ainda esteja no espaço mental de “programa de fim-de-semana” para o consumidor brasileiro (por si só uma fantástica evolução, em relação a décadas passadas), ainda não chegou por aqui o tsunami de livrarias virtuais – Amazon, Barnes & Noble – varrendo para fora do mercado inúmeros livreiros “reais”, como ocorreu nos EUA.

Mas como comprar livros, revistas e jornais digitais?

Algumas livrarias online já oferecem este produto, sem grande ênfase. Os editores – uma das categorias mais “dinossáuricas” e reativas do mundo empresarial – por sua vez, também estão parados, olhando o mundo passar a sua volta, tentando ao máximo não ter que editar obras digitais. O medo de que seu setor seja destruido pela pirataria e circulação gratuita, como ocorreu com as gravadoras, somada a sua natural propensão a não fazer nada diferente, os deixa paralizados.

iba (= árvore)

Eis que a Amazon anuncia sua vinda ao Brasil e o Grupo Abril inaugura sua loja virtual de conteúdo digital – o  iba (com a ajuda dos consultores que vos falam).

O site foi lançado com vários dos principais jornais do Brasil, as principais revistas da Editora Abril e milhares de livros, para serem lidos em e-readers e nos aplicativos para PCs, iPad e Android.

Vamos ver se o mercado editorial se agita, com a nova realidade do varejo que acaba de chegar.

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