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Quero pagar mais impostos!

Nunca imaginei que veria uma reivindicação como esta: bilionários americanos querem pagar mais impostos, e reclamam que não pagam o seu “fair share”.

Warren Buffet escreveu esta opinião no New York Times no ano passado, em um editorial intitulado “Parem de paparicar os super-ricos”. Em seguida, concedeu a entrevista abaixo a Charlie Rose, sobre contribuir para o esforço de reduzir o deficit americano.

Seu principal ponto é que a alíquota de 15% sobre dividendos e aplicações financeiras, beneficia os super-ricos, enquanto a classe média paga de 33 a 41% de impostos sobre seus rendimentos. Bilionários como ele, Bill Gates e, mais notoriamente nos últimos tempos, Mitt Romney, pagam entre 14 e 17%.

Há uma série de argumentos que defendem essa diferença de impostos, entre eles a necessidade de impulsionar o empreendedorismo e promover mais investimentos, vistos como trampolins da atividade econômica e riqueza americanas.

Riqueza politicamente incorreta, literalmente

Mas isso era antes da crise, quando a desigualdade de renda não era uma preocupação nem da população nem do governo, mas um fato da vida, decorrente de uma economia de mercado bem-sucedida. O americano de classe média não via o topo da pirâmide como injustiça social, mas como um exemplo a ser perseguido e elogiado.

Enquanto a base da pirâmide social sofria com o desemprego, achatamento salarial, e custos de saúde e educação (sounds familiar, anyone?), a renda dos famosos “1%” quintuplicou, segundo o IRS, provocando uma clara sensação de transferência de renda.

Na última “fala do trono” de Obama para o Congresso, ele classificou a desigualdade de renda como o maior problema americano e avançou o próprio argumento de Buffet: aumentar o IR de famílias com rendimentos acima de US$ 1 milhão por ano.

Tanto Buffet como Bill Gates e Obama sabem que aumentar os impostos dos super-ricos não resolverá o grave problema de decifit fiscal americano. O ponto deles é a necessidade de mais justiça e coerência no sistema, no qual os bilionários compartilhem o sacrifício orçamentário do governo e da classe média.

What’s in it for them?

As motivações dessa campanha me intrigam. Esses bilionários já doam uma grande parte de suas fortunas fundações e causas filantrópicas. O balanço entre pagar mais impostos e doar menos talvez não faça tanta diferença.

Na minha opinião, eles estão promovendo um “capitalismo moderado”, para evitar uma atuação governamental mais pesada na equalização de rendas, nos moldes europeus. É um esforço de tornar mais justo e preservar o capitalismo liberal, cujas falhas ficaram aparentes nas várias crises econômicas e financeiras dos últimos anos. Agora alguns economistas e policy-makers questionam sua eficácia e sugerem uma possível exaustão do sistema.

Esta dúvida decorre do sucesso da economia chinesa, que continua saudável mesmo durante a pior crise financeira no ocidente em mais de 50 anos. Este sucesso faz com que o sistema chinês, chamado agora de Capitalismo Estatal, seja visto como uma alternativa viável.

Tanto que a Economist.com está promovendo um debate sobre qual seria o melhor sistema para o ocidente hoje: o capitalismo liberal ou o capitalismo estatal. Embora o sistema liberal ainda seja preferido, há muitos argumentos a favor do sistema estatal, mais do que seria de se esperar.

Em um cenário como este, se eu fosse uma bilionária americana, eu também buscaria maneiras de preservar o modelo privado, tornando-o mais justo. É uma sutil, mas bela estratégia de influência!

“Se somos tão bons, por que nossos adversários estão ganhando?”

Na Grécia antiga, subsequentemente às derrotas nas guerras do Peloponeso, Atenas — ou alguns de seus pensadores — também questionaram suas próprias instituições, no âmbito político. Atenas era e se afirmava como líder e modelo entre as cidades gregas, tal como os EUA no século XX, especialmente depois da queda do socialismo.

Contudo, ao ser derrotada em guerra, voltou-se com perplexidade para os regimes autocráticos de Esparta e seus aliados buscando elementos que, ao mesmo tempo explicassem seu sucesso e que pudessem ser incorporados ou emulados resultando em maior poder e efetividade do que a democracia.

O regime autocrático não durou muito em Atenas e hoje sabemos que seu modelo político estava longe de esgotado. Mas a história mostra que um bom modelo pode ser substituído por outro inferior, por algum tempo. E que, no caso da Grécia, essa substituição não contribui necessariamente para o avanço daquela sociedade, mas possivelmente para o declínio, tristemente.

No próximo artigo…

Como no fim das contas nada disso resolve de fato o deficit, a política fiscal para promover o crescimento dos EUA e reduzir o “buraco” será o maior campo de batalhas da campanha eleitoral deste ano. Será a “Campanha Macroeconômica”, sobre a qual falarei um pouco mais no próximo post, pois como diz um amigo meu,

“Todo o mundo deveria poder votar para presidente americano!”

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