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Consultoria de estratégia e liderança

Ame o que faz uma ova!

What is success? I think it is a mixture of having a flair for the thing that you are doing; knowing that it is not enough, that you have got to have hard work and a certain sense of purpose.”
— Margaret Thatcher

 

 

 

 

Nós estamos prestando um enorme desserviço a nossos filhos, martelando em suas cabeças que eles só devem “fazer  aquilo pelo que tenham paixão”, que “se amarem o que fazem o sucesso é garantido”, etc.

Além de gerar expectativas irrealistas, estamos deixando nossos filhos paralisados porque não conseguem descobrir esse “trabalho ideal”. Sentem-se culpados por não serem “suficientemente apaixonados” por nenhuma profissão.

No easy game

Suponha que Junior seja tão apaixonado por jogar video-games que ele tem certeza que terá muito sucesso se perseguir uma carreira em que jogue video-games para viver.

Suponha que, para grande alegria de Junior, Papai consegue para ele um estágio de… “piloto-de-provas” (‘beta-tester’) de games! Quanto tempo você acha que durará a felicidade de Junior?

Eu diria que lá pelo segundo ou terceiro jogo para meninas, cuja totalidade de “corredores” e níveis Junior tenha que testar exaustivamente, uma grande frustração se abaterá sobre nosso herói ao descobrir que mesmo o trabalho dos sonhos envolve atividades e obrigações desagradáveis.

O prazer do trabalho não é o mesmo prazer do hobby. Mas é um tipo de prazer.

Lencioni já havia dito isso

Em março de 2009, quando ficou claro que a recessão americana seria longa e profunda, nosso über-guru Patrick Lencioni escreveu sobre a redescoberta do valor do trabalho, principalmente para os jovens. Vale muito a pena a leitura do point-of-view (de uma página), mas não resisto a copiar um trecho aqui:

There are the people who were industrious and fortunate enough to find one of those cool jobs, but who experienced their own disappointment when they came to the inevitable realization that designing roller coasters and writing books and building rockets didn’t turn out to be the party they expected it to be, and that a rewarding career is not the answer to all of life’s problems. The fact is, even rock stars and advertising executives and fashion designers experience the drudgery of work, not unlike bank tellers and plumbers and retail clerks; they just feel worse about it because they didn’t expect their work to become, well, work.

Love this

Poucas, pouquíssimas, pessoas têm uma paixão tão intensa – especialmente na juventude – que compense os inevitáveis dissabores do dia-a-dia de trabalho.

Fazer aquilo pelo que se tem paixão é um privilégio conquistado. É algo em cuja direção, com muita sorte e esforço, você pode vir a dirigir sua vida após, digamos, a crise da meia-idade ou uma certa independência financeira.

Para o jovem, o prazer do primeiro trabalho é a novidade, o ingresso em um universo social novo – o tornar-se adulto. Não só isso, mas o prazer de receber uma remuneração por seu trabalho, de ir conquistando independência financeira e tudo de bom que isso traz: liberdade, autonomia, propriedade de seu espaço, auto-estima.

Kissinger disse que o poder é o maior afrodisíaco. Talvez o segundo maior seja o trabalho.

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  • Será que foi ai que erramos? Será por isso que o jovem hj demora tanto a buscar sua independência?

    Fica a questão.

  • Mauro Mello

    Olá Leilane,

    Não sei se minha experiência pessoal é a mesma da maioria, mas creio que o problema da falta de anseio (ou anseio tardio) por independência, na geração de nossos filhos, tem várias causas, nem todas classificáveis como “erros”. Mas acredito, sim, que nosso “mantra” de buscar uma ocupação que “apaixone” foi, sim, um erro e que contribuiu, sim, para o problema da independência tardia.

    Uma outra particularidade da nossa geração, como pais, que acredito que contribuiu também para o mesmo problema, mas que eu não classificaria como erro, é o tipo de relação que mantemos com nossos filhos e o ambiente familiar que lhes proporcionamos. Eu acredito que, na grande média, nossa geração criou um ambiente familiar mais acolhedor, com mais autonomia e independência para nossos filhos do que as gearações anteriores.

    Em parte acredito que isso se deve a um avanço, em nossa geração, do entendimento do que consiste ser pai e o que é necessário para criar uma criança psicologicamente saudável (provavelmente produto também de uma criação mais esclarecida de nossos pais).

    Por outro lado, me parece que a independência tardia de nossos filhos está também muito ligada ao fenômeno da “universalização” do divórcio (desculpe o exagero da generalização, refiro-me à aceitação social e ao grande aumento no número de divórcios). Filhos de casais separados tendem a receber uma autonomia maior do que o normal no passado: mesadas generosas; uma “agenda” de compromissos entre duas casas; dois “pontos de afiliação” (quartos em casas diferentes, dois guarda-roupas, etc.). Um ambiente que proporciona essa autonomia não desenvolve no jovem o sentimento de ‘falta’, o desejo necessário para conquistar a independência. O que fazer com essa constatação é uma lição que eu ainda não consegui extrair; ainda penso muito sobre isso.

    Repare que em nenhum momento eu digo que nossos filhos AMADURECEM tardiamente. Eu acho que em certos aspectos eles amadureceram mais rápido do que nós. É no desejo de auto-suficiência e independência que eles estão tendo dificuldade em avançar tão rápido quanto nós. Isso não quer dizer que quando nós “caímos na vida”, voluntariamente, e com garra e determinação, nós estávamos maduros e preparados para isso. Não sei quanto a você, mas eu não estava. Eu “pulei na vida” cedo – assim que pude – porque meu ponto de partida não era nada bom e há anos eu já ansiava por independência e autonomia. Acho que quando nossos filhos derem esse passo (e não um “salto”, como nós) eles estarão mais preparados do que nós para isso.

    Sorte de nossos netos.

  • Regina Oliveira

    Adorei a honestidade do artigo!
    O comentário da minha filha, Julia (13 anos) resume o espírito do tempo, creio eu – ela disse assim: “A missão da vovó era encontrar o Príncipe Encantado – sorte dela – a minha é muito mais difícil, encontrar a Profissão dos Sonhos”.
    Parabéns, uma vez mais, pela matéria.
    Regina

  • Fernanda Gomes

    Nossa, Regina, que sabedoria da Julia, né?
    Ainda bem que no caso da profissão é mais fácil separar paixão de compromisso (ou escolha, o que dá no mesmo).
    Já sobre as relações amorosas não se pode dizer o mesmo.
    Que bom que você gostou e obrigada pelo belíssimo comentário!
    Beijo
    Fernanda