Table Partners

Consultoria de estratégia e liderança

Sobre corrupção e liderança

 Olhando o nobre esforço liderado pela nossa Presidente da República, para minimizar o impacto das quadrilhas que sistematicamente se organizam em torno do poder público, praticando a pilhagem, não consigo deixar de relembrar uma interessantíssima passagem minha pelos universos da corrupção e da liderança.

Nós criticamos, com muita indignação, a locupletação no ambiente público. Criticar o governo nos confere distanciamento; já no mundo privado, bem a nosso lado, a coisa fica mais pessoal, quando acontece no cubículo vizinho. Nossas tradições cordiais nos inibem de realizar esse enfrentamento. Logo o colega é promovido e em poucos anos chega a um cargo de diretoria. Monta cuidadosamente seu império de “bolas”, comissões, coparticipações, furtos e tantas outras práticas antiéticas e ilegais, no ambiente profissional. Somos econômicos em criticar essas práticas, tão danosas quanto as que acontecem no ambiente público.

A corrupção no ambiente privado

Certa vez, quando atuava em uma grande empresa brasileira, fomos instados a agir com firmeza para debelar um foco criminoso operando em um de nossos centros de distribuição (CDs). Era evidente que o patamar de perda naquele CD havia atingido níveis injustificáveis e a causa era furto por funcionários. Havia muito a fazer em termos de melhorias em processos e controles, porem o principal problema era mesmo o grupo que trabalhava lá e a cultura de corrupção que havia se instalado na operação.

Era necessário um trabalho cirúrgico de substituição de pessoas. Não tínhamos como trocar todos os quase mil funcionários do local. Nem era preciso, pois o dano era causado por apenas um pequeno grupo, bem articulado. A questão era como identificar o grupo. Para isso recorremos a uma solução insólita.

A empresa contratou os serviços de um ex-coronel do Mossad, o serviço secreto militar de Israel. Não, a solução não era espionagem high-tech ou ações espetaculares de flagrantes. A solução viria de um teste matricial de perfil de personalidade que o Mossad havia desenvolvido para recrutar agentes em sua sociedade extremamente heterogênea. Nosso consultor, um especialista em psicologia prática, adaptou o teste para uso corporativo e vendia seus serviços nessa área.

Pelo processo que ele estabeleceu, conseguiríamos determinar o nível de confiabilidade e integridade de cada colaborador. Um primeiro teste era aplicado no contingente todo. Os resultados separavam os testados em três grupos: aqueles decididamente corruptos e inconfiáveis; os solidamente confiáveis e íntegros e os “maria-vai-com-as-outras”. Este último grupo, ambíguo, não era necessariamente culpado. Continha indivíduos contaminados, outros coniventes e até mesmo uma dose de inocentes. Para esse grupo aplicava-se uma segunda rodada de testes, destinados a refinar a seleção, identificando outros possíveis envolvidos.

O sistema funcionou direitinho. Identificamos as maçãs podres e reformamos o quadro do CD. No final desse processo o placar ficou assim: corruptos – 15%; íntegros – 10%; “dúbios” – 75%.

75% !

Impressionou-me a grande proporção de pessoas de caráter menos firme, mas a lição mais importante desta experiência veio no final.

Nosso consultor nos informou que os resultados eram bem comuns nas empresas brasileiras. Aconselhou-nos a promover os funcionários que haviam se saído bem nos testes a postos de liderança. O exemplo de integridade, vindo da liderança, moveria os 75% de ambíguos ao comportamento ético.

Este aprendizado simples e objetivo era infalível: liderança respeitável gera equipe respeitada; liderança confiável gera equipe confiante.

Enquanto observava, pela última vez, nosso consultor pegar seu táxi, pensei comigo: somos verdadeiramente uma espécie social e orgânica, que reflete-se em sua liderança.

Nossa Presidente, ao que parece, está correndo para ocupar esse espaço, buscando merecer o respeito e a confiança de um lado, antes o outro lado vença. Que a força esteja com ela.

Vote neste artigoVote neste artigoVote neste artigoVote neste artigoVote neste artigo
Loading...