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Consultoria de estratégia e liderança

Sob o império do forro de bolso

Nos últimos três anos a fiscalização dos portos e a Receita Federal apreenderam mais de mil e trezentas toneladas de lixo enviadas de “exportadores” na Europa e EUA para “importadores” brasileiros. É lógico que as apreensões representam apenas uma pequena fração do que de fato deve estar entrando de lixo “importado” no Brasil.

À medida em que a legislação ambiental fica mais rigorosa, nos países desenvolvidos, torna-se mais economicamente atraente falsificar lixo como mercadoria e enviá-lo para locais “remotos e sem lei” como o Brasil e a Africa.

Empresas dos EUA, China, Reino Unido, Itália, Espanha e Alemanha têm embarcado detritos tóxicos, metais radioativos, ração de cachorro deteriorada, fraldas descartáveis, entre outros lixos, para os portos no sul, nordeste e sudeste do Brasil.

Esta semana foi a vez das autoridades do porto de Suape (Recife, PE) apreenderem 50 toneladas de material hospitalar descartado – lençois sujos, seringas, luvas, máscaras, cateteres e gaze usadas – importados como “tecidos com defeito”, dos EUA. O mesmo importador já trouxe oito outros contêineres semelhantes, este ano, e mais 14 estão a caminho, navegando pelo Atlântico.

A equipe do jornal Folha de São Paulo rastreou o destino da carga até a cidade de Santa Cruz do Capibaribe, distante 190 km de Recife, agreste adentro.

A cidade alega * ser o segundo maior polo produtor de confecções do Brasil e concentrar 85% das empresas de Pernambuco. Pois uma dessas empresas é justamente a importadora de lixo hospitalar americano e atende pelo nome fabuloso de “Império do Forro de Bolso”.

No Império do Forro de Bolso os jornalistas da Folha compraram 4 quilos de lençóis com nomes impressos de diversos hospitais americanos – eles são ali vendidos a quilo.

Nosso cotidiano

Acho interessante que a matéria da Folha sobre este incidente esteja no caderno Cotidiano.

Aceita uma hepatite? - Promotor distribui folhetos do Imperio do Forro de Bolso para empresários têxteis da pujante Santa Cruz do Capibaribe

De fato, esse tipo de tramoia porca (neste caso, literalmente) parece fazer parte de nosso cotidiano desde que o Brasil foi inventado por nossos colonizadores lusos, que aqui vieram para forrar os bolsos de dinheiro e voltar o mais rápido possível para sua terra.

O império português se foi, mas nós continuamos sob o império do forro de bolso – forrar o bolso de dinheiro o mais rápido possível e sumir de cena.

Qual é a causa

A perpetuação dessa atitude oportunística e irresponsável entre empreendedores brasileiros – para a qual temos agora um nome: empreendedorismo forro-de-bolso – está intimamente ligada à precariedade da situação do empresário no Brasil.

São tantos os encargos, riscos, assédios e patrulhas a assombrar o empreendedor, que é impossível escapar de uma sensação de “insustentabilidade a longo prazo”.

Considere algumas das perplexidades de um típico empreendedor brasileiro, honesto e bem intencionado:

“Quantos de meus empregados um dia irão me acionar – e ganhar – na justiça do trabalho, mesmo sem razão?”

“Eu já pago a contribuição sindical de empresa da categoria A, mas as categorias B e C me enviam correspondência ameaçando me protestar se eu não contribuir para elas – qual será esse risco?”

“Tenho meus tributos descontados por meus clientes, mas a lei diz que se um deles não recolhê-los, terei de pagá-los com multa e mora, mesmo nunca tendo recebido tal valor! Se isso acontecer com meus maiores clientes, jamais conseguirei pagar essa dívida…”.

Quem é empresário sabe que essas são apenas algumas das menores de suas inquietações.

Enquanto o ambiente de negócios, no Brasil, for tão hostil aos empresários, uma grande parte deles continuará no empreendedorismo do forro-de-bolso: “quero dinheiro rápido, não importa como, porque no risco eu já estou e quanto mais o tempo passa, aumentam as chances de um desses inúmeros riscos se materializar”.

Quando o problema fica grave

Se a mentalidade do forro-de-bolso se limitasse aos empresários de Santa Cruz do Capibaribe talvez ela não fosse um problema tão grande (mesmo atingindo 85% dos empresários pernambucanos).

O índice de insucesso de pequenos empresários, em qualquer lugar do mundo, é elevadíssimo, de uma forma ou de outra, e as razões darwinianas de sucesso de alguns poucos são sempre obscuras e aleatórias. Uma vez tendo tido sucesso quase todos os “diabos” fazem-se ermitões – banqueiros de investimento selvagens viram beneméritos e empreiteiros gurus de negócio.

O problema mais grave é quando a mentalidade forro-de-bolso invade o zeitgeist do empresariado de grande porte: quando até herdeiros de grandes empresas começam a pautar suas escolhas por um sentimento de urgência de ganhos rápidos, possivelmente em resposta à premissa subliminar que lhes foi impingida, de que não estão à altura de seus antecessores e dos desafios de um ambiente de negócios crescentemente hostil.

Ou quando o grande empresário quer fazer um IPO, ou receber investidores de private equity, ou sócios estrangeiros e sequer tem uma visão de longo prazo para sua empresa, que justifique a entrada de novo capital (e diluição do acionista).

Aí sim, nossa economia começa a destruir valor em larga escala.

Ingredientes para uma solução

Em outro artigo já dissemos que a família-empresária não deveria prometer a suas organizações uma liderança selecionada por meritocracia. A empresa cujo herdeiro é mais competente do que seus gestores sêniores está com os gestores errados. O gestor bom e experiente é sempre melhor do que o MBA de 30 e poucos anos, recém-chegado ao negócio.

O que a família-empresária deve prometer é aportar uma liderança suficientemente preparada, emocionalmente madura, entusiasmada e comprometida com sua função e com o futuro do negócio.

Se essa liderança, ainda que menos experiente, for capaz de liderar em time o futuro da empresa – e sua imunidade à síndrome do forro-de-bolso – só dependerá de três atributos:

INTELIGÊNCIA

Somente em mercados regulamentados ou muito protegidos – uma espécie mais ameaçada de extinção do que o urso polar – lideranças burras conseguem sobreviver.

Lideranças que não conseguem pensar e discutir com clareza, separar fatos de esperanças e entender como se ganha dinheiro em seus negócios são o alimento da concorrência. São o que a Varig foi para a Gol; o que a Antárctica foi para a Brahma – trampolins de crescimento rápido.

Parodiando Vinícius de Moraes, me desculpem os burros, mas inteligência é fundamental. Líderes inteligentes não acham uma boa idéia oferecer a seus clientes lençóis contaminados de hospitais americanos ou comprar uma empresa sem nenhuma razão estratégica.

AMBIÇÃO

A organização cuja liderança tem como ambição ficar onde está não tem futuro. Pode-se dizer (e muitos dizem) que o Unibanco era uma organização mais inteligente do que o Itaú; mas era muito menos ambiciosa.

No outro extremo, a liderança cuja ambição é ganhar um dinheiro extra vendendo lençol contrabandeado de hospital também dificilmente chegará a algum lugar.

A empresa que cresce e permanece é a que tem uma visão ambiciosa para seu futuro – uma visão intrinsecamente incompatível (como um anti-corpo), tanto com a acomodação, como com a insegurança ansiosa que busca o forro-de-bolso.

SAÚDE

Organizações muito inteligentes e muito ambiciosas em geral conseguem grande sucesso, em relativamente pouco tempo. Algumas dessas “organizações-prodígio” desenvolvem, nesse processo, uma cultura agudamente disfuncional que, invariavelmente, um dia sofre um grande “choque” e são obrigadas a se transformar ou definham até a morte.

Todos conhecem algum exemplo:

Enron (choque tão violento que morreu); NewsCorp (grupo Murdoch) tomando agora um tal choque que não se sabe ainda a extensão final do dano; GM, tentando se remodelar; HP, buscando desesperadamente uma liderança que funcione. No Brasil: Medial Saúde (nome irônico), sob acionistas disfuncionais que conflitaram com (e demitiram) inúmeras gestões profissionais, até venderem a empresa a um concorrente.

Desnecessário dizer que organizações saudáveis não estão interessadas em forrar-os-bolsos.


* Melhor dizendo: “a cidade ou a Wikipedia brasileira alegam” – difícil saber, porque o artigo da Wikipedia indica o site da prefeitura como fonte e o site da prefeitura reproduz o texto da Wikipedia e a referencia como fonte. [volta]

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  • KESIA

    Gostei da forma esclarecedora que compõe a notícia.
    Parabéns, Apesar da péssima notícia de importação de lixo hospitalar.