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O homem das controvérsias incômodas

O que quase todo mundo sabe, inclusive eu (até sua video-conferência hoje no Info@Trends), sobre Julian Assange, é que o australiano fundador do Wikileaks está sob prisão domiciliar na Inglaterra e pode ser extraditado para a Suécia, em relação a um caso de ofensa sexual.

Pois a primeira de muitas controvérsias incômodas que ouvi naquela manhã foi que, ao contrário de sua “bio” no evento, ele não foi sequer acusado de ofensa sexual, mas ainda assim está preso em casa. Em fevereiro deste ano o juiz decidiu por sua extradição para a Suécia, da qual Assange está recorrendo em “semi-liberdade”. Ou seja, apesar de ter pago fiança e recebido “habeas corpus” da justiça inglesa, está encarcerado.

Assange usa este fato como evidência da natureza política do seu processo e a falência das instituições do estado de direito ocidentais, consideradas baluarte da civilização moderna. Os exemplos de fato são extensos: os atos de violência política e militar pelos EUA, de corrupção e “poder paralelo” na Europa – além dos países em desenvolvimento ou sub-desenvolvidos – e de vigilância e censura na China.

Qual é mais “podre”? O governo ou a imprensa?

A segunda onda de controvérsias incômodas veio das suas críticas à grande mídia, expostas em um evento organizado e frequentado pela própria.

Se por um lado, a estrutura do Wikileaks é muito competente em divulgar segredos bem guardados e proteger suas fontes, Assange já sabia desde o começo que esta captação não seria o maior gargalo e desafio da operação, mas sim sua publicação, irrestrita e não-censurada.

Eu sempre imaginei que a mídia faria fila para publicar o que o Wikileaks vaza, mas, para minha surpresa, o que Assange denuncia é o oposto: veículos respeitados como o Guardian e New York Times consistentemente censuram e “editam” relatórios do Wikileaks, frequentemente motivados por interesses financeiros ou de influência política.

O caso do NYT foi um extenso relatório sobre a operação americana no Afeganistão chamado “Afghan Diaries”, cancelado e posteriormente publicado pela revista de notícias alemã Der Spiegel. O caso do Guardian foi relacionado a uma lista que expunha dezenas de políticos e empresários numa rede de corrupção na Bulgária, do qual o Guardian extraiu um único nome, de um operador russo.

Recentemente o WikiLeaks, que continua operando em alta velocidade, vazou mais de cem mil transmissões diplomáticas americanas na web, para medir o que emergeria de informações na mídia ‘mainstream’, mas os resultados ainda são bastante modestos.

So what’s next for Mr. Assange?

Sempre em tom de acusação, Assange deixa uma última reflexão desconfortável para o público: a ameaça real e plausível de migrarmos para uma cultura disseminada de vigilância e censura. Essa cultura já vigora, na visão dele, igualmente na China e nos Estados Unidos. O ativismo do WikiLeaks, por livre expressão e acesso a informação, busca contrapor estas tendências de controle à informação e desmando político e financeiro.

Caso Assange seja de fato extraditado para a Suécia, acredita-se que pode ser mais fácil para os Estados Unidos exigirem a “entrega” dele em território americano. Se isso acontecer, realmente o governo americano será impiedoso com todos os vazamentos diplomáticos que o WikiLeaks divulgou.

Sei que, a partir de agora, vou acompanhar com muito mais interesse e proximidade, os desdobramentos do julgamento de Assange e de como o WikiLeaks continuará operando.

O que é largamente aceito pelas sociedades ocidentais, é que o WikiLeaks originou um novo tipo de ativismo que se tornou importante e deveria ser valorizado por qualquer sociedade democrática que queira promover livre acesso a informações sensíveis que as afetam de uma forma ou outra.

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