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Consultoria de estratégia e liderança

Líderes Tiriricas

Fui informado por fonte confiável que o exame de seleção para ingresso no CEAG da FGV não terá mais a prova de redação. O motivo começa pela dificuldade em corrigir homogeneamente muitas provas de avaliação subjetiva como a de redação, mas vai além. Diante do primeiro motivo, alguém pediu para se levantasse se o resultado dos últimos anos se alteraria caso a nota de redação fosse eliminada. A resposta foi não.

Aparentemente há apenas uma justificativa para o nenhum peso relativo da nota de redação: todos tiraram a mesma nota. Difícil de acreditar. A verdade é que todos tiraram mais ou menos a mesma nota, mas, importante, a nota foi baixa o suficiente para não pesar quase nada ante as outras notas. A média estava em torno de três. De zero a dez, o pessoal mais qualificado (tanto que foi aprovado) para a pós graduação da talvez melhor faculdade de administração de empresas do país, tirou três. Traduzindo em miúdos: nossos futuros ou atuais líderes não sabem escrever. E pensar que submeteram o Tiririca a um teste para saber se ele, Tiririca, sabia ler e escrever!

Eu quero propor uma reflexão aqui. Minha tese é que quem não sabe escrever, não sabe ler, ou melhor, leu pouco e, então, lê mal. Mas quero ir além. Proponho que deduzamos juntos que quem não sabe escrever, não sabe falar bem. Existe quem fala mal e escreve bem. Alguns tímidos, por exemplo. Mas, não creio que exista o contrário: um sujeito que escreva mal e fale bem. O Lula é tão exceção que foi presidente da república, se reelegeu sob o mensalão e fez de uma desconhecida sua sucessora. Além disso, acho que Lula escreveria bem, se escrevesse.

Voltemos aos selecionados pela FGV. Grande parte de quem faz pós na GV, não tenho estatística nenhuma, mas o meu entorno assim indica, fez engenharia, Politécnica ou ITA, de preferência. São pessoas boas de números, de raciocínio matemático e, talvez por isto (sei que estou me arriscando), ruins de, digamos, humanas.

Se você não concorda com nada da minha suposição, pare de ler, caso contrário me acompanhe. Se você está lendo esta linha é porque ou concorda ou desconfia que quem for ruim de redação será fraco em humanas. Pois, junte-se à minha perplexidade: a esta população vai ser dado cuidar de gente nas organizações.

Prestei serviço há alum tempo para uma empresa da área financeira. Muita gente da Politécnica com pós na GV. Havia um slide de PowerPoint que mostrava um cálculo a partir de quando o nome da empresa aparecia na mídia. Este cálculo, se bem me lembro, era a multiplicação da centimetragem da citação pelo preço de tabela que aquele veículo cobrava para veicular publicidade. Este valor estava expresso em dólar. Alguém entre aqueles engenheiros pós graduados em administração resolveu perguntar se o dólar era o do final de cada mês, ou se o cálculo era a soma em reais para o ano todo, convertido ao dólar do fim do ano. Era a segunda opção e o autor da pergunta não concordou. Abriu-se um debate enorme que foi resolvido quando alguém disse que a empresa de auditoria havia sugerido aquele critério e assim seriam publicados todos os dados de balanço. O número foi mantido, mas eu estava curioso sobre um mês no qual aquele valor ficava muito acima da média. Ninguém quis saber o que houve naquele mês de pico porque o assunto era a taxa do dólar para conversão. Um evento humano, a empresa ser mais citada na mídia, não despertou a atenção daquele grupo,mais interessado nos detalhes do cálculo que no motivo da variação.

A verdade é que estamos criando líderes, incapazes ou com dificuldade de falar em público, de motivar pessoas, de externar emoções. O uso do PowerPoint com excesso de texto, abundância de números e slides de backup é apenas a prova definitiva da sobrevida destes líderes tiriricas.

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