Table Partners

Consultoria de estratégia e liderança

Internet e democracia


Este mês a Secretária de Estado americana, Hillary Clinton, prometeu que os EUA intensificarão o suporte à liberdade mundial na Internet. Os EUA ajudarão “povos em ambientes de Internet oprimida a contornar os filtros e manterem-se um passo à frente dos censores, dos hackers e dos criminosos que os espancam ou aprisionam pelo que dizem online,” disse Hillary em um discurso em Washington.

Será este um gesto demagógico do governo americano? Será verdade a afirmação de Hillary de que “a liberdade na Internet é essencial para a paz e a prosperidade”?

Um tema polêmico

As revoluções democráticas que estão se alastrando pelo Oriente Médio e África têm gerado um debate intenso sobre a importância da Internet – em particular das redes sociais, como Facebook e Twitter – para a democracia.

As opiniões são extremadas: há propostas sérias de se conceder o Prêmio Nobel da Paz ao Twitter e, ao mesmo tempo, intelectuais influentes como Malcolm Gladwell sustentam que a comunicação via Web é irrelevante para movimentos sociais como os que estão acontecendo no mundo árabe. Afinal, argumenta Gladwell, não havia Internet ou celulares quando o Muro de Berlim foi derrubado ou a Bastilha tomada.

Eles parecem não pensar assim

Há amplas evidências de que os ditadores do Oriente Médio percebem as mídias sociais como um perigo.

O regime do ex-presidente Zine El Abidine Ben Ali, da Tunísia, lançou uma campanha muito agressiva e tecnicamente sofisticada para coletar senhas do Facebook em uma tentativa desesperada para eliminar conteúdo que o ameaçava.

O correspondente do New York Times, David Kirkpatrick, escreveu de Tunis: “Antes do advento do Facebook e do Twitter surtos locais de agitação, aqui, foram rapidamente esmagados. Desta vez a revolta se espalhou por todo o país, à medida que manifestantes postavam vídeos de suas próprias manifestações. Imagens granuladas de celular, de um confronto com a polícia em uma cidade, instigavam a população da próxima”.

No auge da revolução da Tunísia, a adesão ao Facebook aumentou porque, desta forma, os usuários conseguiam ficar um passo à frente dos censores.

O regime tunisiano chegou a prender usuários de redes social de maior destaque, como o ativista via Twitter Slim Amamou, obrigado a entregar as senhas e informações sobre a resistência online. (No governo pós-revolução da Tunísia Ben Ali Amamou é agora Ministro da Juventude e do Desporto).

O Egito foi ainda mais agressivo no ataque às novas mídias. O regime de Mubarak prendeu e ameaçou torturar Wael Ghonim, gerente de marketing do Google, que havia criado um grupo no Facebook em memória de Khaled Mohamed Said, 28 anos, assassinado pela polícia egípcia em junho de 2010. Imagens do cadáver mutilado de Said atraíram mais de meio milhão de seguidores no Facebook, catalisando o ultraje e provocando protestos. Mais tarde, quando manifestantes tomaram Tahrir Square, o governo desligou a Internet por vários dias, prejudicando a economia.

Enquanto isso, na China…

Desde 2009 o regime chinês já fechou o Facebook, o Twitter e outras redes, por não concordarem em praticar a auto-censura de temas políticos, exigida pelo governo.

Ontem, 25/fev, a Bloomberg noticiou que o governo chinês bloqueou mais um site social – desta vez foi a rede profissional LinkedIn.

Um usuário do LinkedIn criou, na semana passada, um grupo online para discutir se as revoluções que derrubaram ditaduras na Tunísia e no Egito deveriam ser levadas à China.

E agora, direto da Líbia…

O correspondente do New York Times (duas vezes premiado com o Pulitzer), Nicholas Kristof, tuíta que Kadafi (Qaddafi), não tendo se saído muito bem com a mídia tradicional…

Having failed to bomb his people into submission, #Qaddafi is now using his TV speech to try to bore them to death.
[Tendo falhado em bombardear seu povo à submissão, Kadafi agora está usando seu discurso na TV para matá-los de tédio]

… agora tenta melhorar sua situação através da Internet:

Resident of Tripoli, #Libya, tells me govt is promising to pay people to send pro-Qaddafi text msges to their friends.
[Residente de Trípoli, Líbia, me diz que o governo promete pagar às pessoas para que enviem SMS’s pró-Kadafi a seus amigos]

Nesse meio tempo, AliTweel, um usuário anônimo do Twitter, residente em Tripoli, tuíta:

Im no longer available for interviews, im risking my life already here on twitter, thanks. Read my tweets, talk about them if you like.
[Não estou mais disponível para entrevistas, eu já estou arriscando minha vida aqui no Twitter, obrigado. Leiam meus tweets, conversem sobre eles se quiserem]

Hillary está certa

Que um observador excepcionalmente talentoso como Gladwell engane-se sobre o poder revolucionário da Internet é um sinal de quão rapidamente a comunicação e, com ela, o mundo estão mudando. Considere um exemplo de como revoluções eram empreendidas uma geração atrás:

Em 1975, rebeldes do Timor Leste declararam a independência de seu país. Temendo que a nova nação se alinhasse aos soviéticos, Henry Kissinger autorizou a Indonésia a utilizar bombardeiros americanos para esmagar a rebelião de Timor.

As atrocidades cometidas foram inúmeras. Tropas da Indonésia executaram centenas de civis; aldeias inteiras foram massacradas e destruidas.

O líder rebelde, Xanana Gusmão desejava desesperadamente alertar o mundo sobre estes crimes. Mas como? Rodeado por oceano e por território inimigo, nos anos mais difíceis da luta sua comunicação baseava-se num rádio Wagner de 50 watts que, transportado para o alto de montanhas, transmitia um sinal cheio de estática, na esperança que australianos estivessem ouvindo. Os rebeldes tinham que correr com suas emissões, para que o inimigo não os localizasse e matasse.

Para complicar, somente um homem entre eles – seu nome de guerra era Hadomi, recorda-se Xanana – era forte o suficiente para carregar a pesada bateria do rádio. Eventualmente, os indonésios mataram Hadomi e os rebeldes foram silenciados.

Foram necessários 27 anos para que o Timor Leste conquistasse sua independência (em 2002). Até então, um quarto da população do país foi morta na guerra.

Imagine o que Xanana poderia ter feito com um iPhone e uma página no Facebook.

Vote neste artigoVote neste artigoVote neste artigoVote neste artigoVote neste artigo
Loading...