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Hoje eu li um jornal

Meus clientes editores de jornais me desculpem mas eu vou confessar: há muito tempo eu não leio um jornal.

Hoje, motivado pelo desenrolar dos acontecimentos desde terça-feira no Egito, eu resolvi ver o que o Estadão tinha a noticiar.

A experiência que o jornal me ofereceu explica claramente porque a base de leitores dos jornais cai aceleradamente e vai se concentrando na faixa de idade de mais de 55 anos:

1. Manchete errada

Protestos aumentam no Egito e ditador reforça linha dura” não reflete, em absoluto, o que aconteceu ontem no Egito. Empossar um Vice-Presidente e um Primeiro-Ministro foi uma tentativa de aplacar (“ludibriar” seria mais preciso) a rebelião popular, não um “reforço da linha dura”. O membro do governo mais identificado com a linha dura – o chefe das forças de segurança e filho do ditador Mubarak – fugiu ontem do país, com sua família, para Londres, junto com 19 outros jatos executivos de empresários ligados ao governo e suas famílias (fato não mencionado na matéria do Estado).

A manchete do Financial Times é mais adequada, apesar de atrasada, em relação aos fatos do dia: “Mubarak promete novo governo

2. Texto bom, mas muito mais pobre do que o conteúdo disponível na Internet

Antes do editor estragar a matéria com um título errado, o texto do correspondente do Estadão no Cairo estava muito bom. Mas a densidade de informação, comparada à de sites como Mother Jones e Al Jazeera resulta numa cobertura rasa e quase desprovida de interesse humano (que é o que atrai e retem o leitor). O Estadão assina o conteúdo da Foreign Policy (publicação americana, muito influente no governo Obama) e, como parte da cobertura do Egito, publicou hoje matéria da revista. Ironicamente, @blakehounshell – editor-chefe da revista – foi uma das pessoas que “segui” ontem, no Twitter, para acompanhar os acontecimentos no Egito, e foi, de longe, o produtor de tweets menos profícuo e menos relevante, principalmente se comparado a @NickBaumann (articulista do Mother Jones, mencionado acima) e @SultanAlQassemi, colunista do The National.

A mídia que mais perde audiência para a Internet são os jornais porque, ao contrário deles, o conteúdo Web é disponibilizado em tempo real e, ao contrário da TV e do rádio, permance disponível para quando o usuário quiser acessá-lo. Ou os jornais oferecem mais do que a Web, ou vão continuar a perder audiência até desaparecerem.

3. Cobertura míope

Talvez o maior “pecado jornalístico” que grande parte dos jornais está cometendo seja a perspectiva restrita com que estão abordando os acontecimentos nos países árabes – dominados por monarquias e ditaduras desde o fim da Primeira Guerra Mundial.

Numa reprise quase exata das Revoluções de 1989, no Leste Europeu, que levaram à queda do Muro de Berlim e, logo em seguida, ao colapso da União Soviética, subitamente – sem previsão por nenhum serviço de inteligência ocidental – as populações de três países árabes rebelam-se contra seus governos. O governo da Tunísia cai em 14 de janeiro (depois de 23 anos no poder), o do Egito deve cair nos próximos dias e o do Yemen, possivelmente, nas próximas semanas.

Este pode ser o fato mais importante para a democracia e a ordem política internacional dos últimos 22 anos mas, lendo o Estado, tem-se a impressão de que os acontecimentos no Egito são uma curiosidade isolada, de um país remoto e muito pouco relevante para nós. Não há uma análise sequer ou mesmo uma conexão entre os três países árabes. Os protestos no Yemen não são sequer noticiados.

4. Público jovem ou mais globalizado/sofisticado desservido

Três (entre muitos) exemplos: diversos manifestantes egípcios adotaram a iconografia de “V de Vendetta” – história em quadrinhos sobre a derrubada de um governo ditatorial na Inglaterra, de grande circulação nos anos 80, transformada em filme em 2006. Além disso, a imagem abaixo circulou muito pela Internet, logo após o governo egípcio interromper o acesso da população à rede, na sexta-feira. Nenhuma dessas referências culturais, eloquente para o público jovem-adulto (young adults), foi mencionada no Estadão.

Da mesma forma, o vídeo abaixo está se tornando icônico, na Internet, e não é sequer comentado no jornal.
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Finalmente, enquanto ocorre um intenso debate sobre o papel da WikiLeaks na precipitação da rebelião popular que derrubou o governo da Tunísia e inspirou os protestos no Egito e Yemen, o Estadão, mais uma vez desconhece o assunto, alienando seus leitores mais conectados aos temas internacionais mais polêmicos.

5. Publicidade invasiva

Os jornais, mais do que nunca, precisam de sua receita publicitária. Mas a experiência de ler o primeiro caderno do Estado de hoje é realmente irritante.

As notícias espremem-se em cantos de páginas totalmente dominadas por enormes anúncios das Casas Bahia. As páginas A5 a A15 são inteiramente dedicadas a uma única campanha da Hyundai.

Ir virando 10 páginas do jornal (pretas, daquelas que sujam a mão) vendo a mesma propaganda fez-me sentir “feito de palhaço”. Acredito que muita gente deve ter tido a mesma reação.

Casado com a superficialidade da cobertura, o resultado final desse esvaziamento das páginas do jornal é uma forte sensação de pobreza de conteúdo.

Não é à toa que tanta gente migra, mês após mês, para outra fonte de informação.

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