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Empreendedorismo à moda dos empreendedores

Em outros artigos já descrevemos o ensino de empreendedorismo em Wharton (Univ. da Pennsylvania), absolutamente inovador na época em que foi lançado, porque baseia-se no entendimento de como empreendedores reais pensam e fazem negócios que dão certo.

Recentemente um novo grupo de pesquisadores, ligados principalmente ao IMD (Suiça) e à Darden School (Univ. da Virgínia) avançaram e sistematizaram ainda mais o entendimento de como empresários de sucesso empreendem.

Esse conhecimento novo está agora publicado no livro “Effectual Entrepreneurship“.

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Criando o idioma do empreendedorismo

Um aspecto interessante deste livro é que ele claramente é escrito para um leitor com as características de empreendedores da vida real: práticos, objetivos, apressados, impacientes com teorias e textos que exijam um span de atenção muito prolongado. O texto é ágil e obsessivo com objetividade.

Falando em linguagem, parte do mérito dos autores é começar a criar um idioma do empreendedorismo. Como disse Lavoisier, “para invocar um conceito novo é necessária uma palavra”.

Quem sou, o que conheço, quem conheço

Entre vários conceitos novos, os autores enfatizam quatro “Princípios” que descrevem a forma de pensar característica de empreendedores de sucesso:

Princípio do pássaro-na-mão. Ao invés buscar e selecionar oportunidades e de esperar as condições ideais para implementá-las, os empreendedores de sucesso começam com o que têm na mão: quem eu são (ex: o que desejam e gostam de fazer), o que conhecem (sua experiência, seu know-how) e quem conhecem (que suporte e que stakeholders podem solicitar e começar a alinhar imediatamente).

Princípio da co-criação do negócio. Para alinhar e aumentar progressivamente o compromisso do maior número possível de stakeholders do novo negócio – investidores, sócios, clientes, distribuidores, etc. empreendedores de sucesso abrem mão de definirem sozinhos o novo negócio/produto/mercado. Compartilhando sua criação com os stakeholders, obtêm deles suporte e comprometimento com o projeto.

Princípio da perda permissível. Tipicamente o empreendedor de sucesso concentra-se em saber e em administrar o montante máximo que pode perder, caso sua iniciativa não tenha sucesso – o que, estatisitcamente falando, é o cenário mais provável de qualquer iniciativa. Análises como Fluxo de Caixa Descontado ou payback dependem de estimativas “resultados esperados” que, realisticamente falando, não são esperados – mesmo negócios que dão certo costumam seguir caminhos completamente diferentes daqueles imaginados na fase de start-up. Saber e limitar o quanto pode perder e alavancar criativamente os recursos limitados que possui é a habilidade central do empreendedor de sucesso.

Princípio da limonada. Tanto o anedotário de negócios como a pesquisa acadêmica indicam que a grande maioria dos negócios bem sucedidos nasceram de projetos/conceitos completamente diferentes dos que acabaram resultando. Os empreendedores de sucesso são aqueles que, apesar de perseverantes e apaixonados por seus projetos, são capazes manter a flexibilidade e acolher as surpresas e imprevistos, incorporando-as ao projeto e ajustando os objetivos do projeto. Para o administrador surpresas são más notícias; para o empreendedor surpresas podem ser o caminho para oportunidades diferentes da original, que podem levar ao sucesso. Empreendedores alavancam os imprevistos.

O pulo do gato

O que os quatro princípios acima refletem, na prática, é uma diferença fundamental de atitude em relação a fazer coisas no mundo.

A maioria dos gestores entende – corretamente – seu papel como sendo o de definir objetivos, entender os meios necessários para chegar lá, obter esses meios e, de maneira disciplinada, empregar os meios até atingir os objetivos.

Empreendedores de sucesso, quando visualizam um objetivo, seguem a direção oposta: pensam em como os recursos que já têm em mãos (capital, conhecimento, relacionamentos) podem ser usados da melhor maneira possível para progredir em direção ao objetivo – ainda que sem verem claramente como poderão chegar ao objetivo final apenas com os recursos atuais!

Na maioria das situações de negócio, especialmente nas grandes empresas, o pensamento do gestor funciona muito bem.

Onde a abordagem “gerencial” não funciona é na hora de criar novos negócios, lançar produtos completamente novos, entrar em mercados desconhecidos, etc… Nestas ocasiões, o pensamento empreendedor costuma dar mais certo e, quando não dá, as perdas são menores.


Para saber mais:

Ótimo vídeo do IMD (de aprox. 9 min) com Stuard Read (um dos autores) explicando alguns dos conceitos do livro:

Outro vídeo com o mesmo co-autor – poucas semanas depois do lançamento do livro – explicando a uma turma do IMD a origem do livro e dos conceitos expostos:

A apresentação que Read faz, no vídeo acima (e que não aparece na filmagem) está aqui:

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