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Economia em 2011 – Navegando na “perfect storm”

A continuação, este ano, da boa fase econômica que temos vivido desde 2009 exigirá, mais do que em 2010, coragem e boa visão de negócio do empresário brasileiro.

Em 2011, ainda mais do que nos anos anteriores, nosso crescimento poderá estar na contra-mão do cenário internacional, especialmente se todas as economias desenvolvidas – EUA, Europa, Japão e China – mergulharem, simultaneamente, em um mau ano.

E quais são as chances disso acontecer, em 2011?

Não são poucas. Vamos por partes.

Europa

Com as crises da Irlanda, Grécia, Espanha e agora Portugal, a Comunidade Européia não escapa mais de um 2011 de austeridade. Se essa austeridade se transformará numa recessão severa dependerá da competência e credibilidade das autoridades monetárias da União Européia junto ao mercado financeiro internacional. Mas que 2011 será um ano fraco por lá, não há dúvida.

Enquanto isso, deste lado do Atlântico, como andará a economia americana em 2011?

EUA

A economia americana está demorando a sair da crise. Alguns economistas começam a temer que os EUA estejam embarcando em um longo ciclo – uma década – de estagnação ou declínio, como vem acontecendo com o Japão desde 1997.

Você sem lembra de como a economia japonesa era pujante e ia “dominar o mundo”, nos anos 80 e 90? Durante aqueles anos, a liquidez gerada pelo crescimento acelerado das décadas anteriores gerou uma bolha imobiliária, que criou uma capacidade irreal de empréstimos nos bancos e uma valorização, também irreal, da bolsa de Toquio. Estourada a bolha, tudo o mais veio abaixo com a cotação dos imóveis: o crédito, o capital disponível em bolsa, a poupança da população… enfim, toda a capacidade de financiamento do crescimento. Resultado: uma década de estagnação da economia japonesa.

Será possível que o mesmo esteja acontecendo agora, com a economia americana?

Uma coisa as duas crises – japonesa de 97 e americana de 2008 – têm em comum: foram disparadas pelo estouro de uma bolha imobiliária, que quebrou o mercado financeiro. A pergunta é: o valor dos ativos americanos se recuperará em breve, ou seguirá o caminho de longo declínio, como no Japão?

O gráfico abaixo, feito pela área de economia do banco Societe Generale sugere que o cenário de declínio não deve ser descartado. Ele mostra uma forte correlação entre o valor dos ativos e o % da população trabalhando. Por esta perspectiva, o declínio dos ativos japoneses não foi provocado pelo estouro da bolha, mas pelo aumento da população idosa (vendendo seus ativos, para manter-se). A inexorável saída da geração ‘baby-boomer‘ da economia, pode provocar o mesmo efeito de pressão de oferta no valor dos ativos americanos, comprometendo a capacidade de recuperação e crescimento da economia.

A esse cenário soma-se o endividamento muito elevado, tanto do setor público como privado (ver gráfico abaixo) e o resultado é um clima de muita incerteza sobre a economia americana, para 2011.

Em 2011 a China deverá ultrapassar os EUA como o maior fabricante de bens do mundo – título que era americano desde 1890. Na verdade, esta será uma devolução do título porque durante 1.500 anos, até 1850, a China foi o maior fabricante e exportador de manufaturados do mundo.

Poderá a China sustentar a economia mundial – e, consequentemente, a nossa – em 2011?

China

Em 2009 a China tomou o lugar dos EUA como o maior mercado de exportações brasileiras. A continuação da prosperidade brasileira – e do mundo – dependem da saúde da economia chinesa.

Em 2010 ela resistiu bem à crise mundial mas, infelizmente, há nuvens se formando no horizonte. O governo chinês e os economistas internacionais estão preocupados com a inflação chinesa. Se ela disparar, medidas recessivas terão de ser usadas.

Mas uma ameaça bem maior está rondando a China: será que ela se aproxima de um estouro de bolha imobiliária, tal como aconteceu no Japão em 1997 e nos EUA em 2008?

Os dados indicam que sim: nas vésperas do estouro da bolha japonesa, os investimentos imobiliários equivaliam a 9% do PIB; nos EUA eles eram (2007) 6%. Na China, hoje, os imóveis equivalem a 10% do PIB. O governo chinês estima que 64,5 milhões de apartamentos estão desocupados no país, a maioria como investimento especulativo. Apesar disso, a quantidade de espaço em construção, neste momento – 2,8 bilhões de metros quadrados – é suficiente para que cada chinês (incluindo crianças) compre 2,3 metros quadrados novos.

O crédito bancário, tal como no Japão e nos EUA, em suas respectivas bolhas, cresceu aceleradamente nos últimos anos:

Já há alguns sinais de desaquecimento da economia chinesa, como o consumo de eletricidade que teve, em outubro/2010, a maior queda dos últimos 20 anos:

E nós, como ficamos neste ambiente internacional inóspito para 2011?

Brasil

Já há quem preveja um ano difícil para nós. O OECD, por exemplo, em seu relatório de indicadores antecedentes, de 10 de janeiro/2011, aponta  uma desaceleração na economia brasileira (e, por sinal, uma recuperação nos países desenvolvidos e China):

Há, contudo, um ditado econômico, atribuído a Kalecki, que diz: o trabalhador gasta o que ganha; o empresário (e o governo) ganham o que gastam. O nosso ano vai ser tão bom quanto nossas empresas (e governo) forem capazes de investir.

Nesse ponto o ambiente internacional hostil pode funcionar a nosso favor: não deverá faltar capital/poupança externa querendo ser investida aqui no Brasil.

Mas haverá confiança, no empresariado brasileiro, para continuar a investir em 2011?

Esses investimentos precisarão ser justificados pela demanda interna, já que o mercado internacional não deverá, este ano, absorver uma expansão de nossa oferta. Ou seja: uma expansão, ainda que moderada, da renda da população e do crédito, ao consumo e a investimentos, podem ser o motor de nossa economia em 2011, como foram em 2010.

O crédito no Brasil já está em torno de 50% do PIB, o que ainda deixa algum espaço para expansão. Mas ao final de 2011 talvez cheguemos ao limite do endividamento seguro – veja no gráfico abaixo como estava, em 2008, a relação crédito/PIB nos países europeus que hoje estão em crise.

Em 2011, portanto, deveremos ter mais um ano bom, sustentado – mais do que em 2010 – pelo crédito interno e fluxo de capital externo. Enquanto isso, torceremos para a “conjunção negativa dos astros”, lá fora, não acontecer ou, pelo menos, passar rápido.

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  • joão carlos

    Mauro,

    Precisa de mais explicação do porque os jornais perdem seu espaço? Para que comprar um jornal se tudo que preciso de informação está na rede em tempo real e a qualquer tempo. Basta escolher a(s) fonte(s) e rapidamente teremos acesso ao conteúdo sob diversas perspectivas e não somente do editor de um determinado veículo. As revistas deverão ter maior longevidade pela segmentação do conteúdo. Será que os jornais não deveriam fazer o mesmo?