Table Partners

Consultoria de estratégia e liderança

Sobre sardinhas e solteirões

Para mim, não tem discussão: o líder deve se comunicar bem.

Minha experiência profissional trata da comunicação pessoa a pessoa, seja de uma para uma ou de uma para muitas pessoas.

Pode ser uma reunião, o cafezinho, uma convenção ou uma palestra. A(s) pessoa(s) a quem se destina a mensagem pode(m) entender do assunto entre nada e muitíssimo e a abordagem pode ter uma graduação que vai do racional ao emocional. Chamo esta variedade de possibilidades de apresentação e sempre faço a ressalva que neste ato de se apresentar pode ou não haver um arquivo de PowerPoint envolvido.

Nas mais diversas situações de comunicação há uma regra sem exceções: o resultado final não é o que o emissor da mensagem quis e sim o que o destinatário entendeu.

Você já deve ter recebido pela Internet a história do solteirão que morreu de repente, justo quando estava redigindo o testamento e que passou desta vida passageira para outra e eterna antes de poder pontuar o texto. A redação do testamento acabou sendo, sem pontos ou vírgulas: “Deixo meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres”.

Irmã, sobrinho, padeiro e pobres pontuaram o texto como quiseram, ou melhor, de acordo com os respectivos interesses. Para não aborrecer meu leitor com todas as alternativas, cito a interpretação da irmã: “Deixo meus bens a minha irmã, não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres”. Já o sobrinho pontuou a frase assim: “Deixo meus bens a minha irmã? Não! A meu sobrinho.” Padeiro e pobres receberam do sobrinho a mesma interpretação dada pela irmã.

O que eu quero enfatizar com esta história singela é que, a menos que sejamos claros o suficiente, a partir de uma intenção de comunicação, cada um dos recebedores da mensagem, seja um testamento, seja um plano de trabalho, puxará a brasa para sua sardinha.

“Interesse” é o que a “sardinha” representa na metáfora da frase anterior, em que pessoas fritam sardinhas em um braseiro coletivo. Cada um quer seu peixe pronto o mais rápido possível e, por isto, fica impossível a realização do interesse de cada um.

Entre outros papéis cabe ao líder harmonizar interesses, senão conflitantes, pelo menos não completamente congruentes.  Caberá ao líder definir um tempo de permanência da brasa sob cada sardinha para que se otimize o rendimento do calor.

Faço a união entre peixes fritos e um solteirão que morre antes de pontuar o respectivo testamento enfatizando a variedade de elementos em um processo de comunicação, ressaltando a importância de cada um destes elementos e chamando atenção para o fato de que detalhes aparentemente sem importância, porque pequenos ou acessórios, comprometem a eficácia da comunicação.

Coisas acessórias como gestos, respiração, ritmo das sílabas, volume da voz funcionam como os pontos e as vírgulas do testamento do falecido solteirão. Se o cidadão prestes a falecer falasse, ao invés de escrever o seu testamento, a pontuação estaria nos gestos, respiração, ritmo das sílabas, volume da voz. Posso chamar estes acessórios de fator humano, pois quem gesticula, respira, emite sons é, sem possibilidade de alternativa, um ser humano.

Como o Zé Simão em sua cruzada antitucanês, termino com minha cruzada anti PowerPoint como sinônimo de apresentação. Quem assim pensa e não dá importância ao que chamei de fator humano na comunicação pessoa a pessoa corre o risco de ser enganado por um pobre e esperto cidadão que faz quem julga o testamento do solteirão entender que a intenção do texto era:  “Deixo meus bens a minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres”.

Vote neste artigoVote neste artigoVote neste artigoVote neste artigoVote neste artigo
Loading...