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Consultoria de estratégia e liderança

A “prova final” do empresário de ensino superior

Uma década de grandes transformações

Em 1997, as Faculdades privadas brasileiras – ou “Instituições Privadas de Ensino Superior” (IES) – detinham 1,2 milhão de matrículas. Na década que se seguiu, o mercado apresentou a impressionante taxa de crescimento de 11% ao ano e atingiu, em 2008, o volume de 3,8 milhões de matrículas. Para efeito de comparação, neste mesmo período o número de matrículas nas universidades públicas cresceu 5% ao ano (de 0,8 milhões em 1997 para 1,3 milhão em 2008) e o PIB brasileiro cresceu 3% ao ano.

Este crescimento pode ser explicado por três fatores interrelacionados. O primeiro foi a expansão da demanda decorrente tanto da universalização do ensino fundamental e médio como do retorno de pessoas que haviam abandonado os estudos, em busca de melhor qualificação para o mercado de trabalho. O segundo fator foi a acelerada expansão da oferta, necessária para atender o crescimento da demanda, caracterizada, principalmente, pela abertura de novas instituições – de 700 em 1997 para 2.100 atuais. Como conseqüência, a oferta de cursos e vagas aumentou mais que cinco vezes – os cursos passaram de 3,4 mil em 1997 para mais de 18 mil e as vagas saltaram de pouco mais de 500 mil para mais de 2,5 milhões. O terceiro fator de crescimento do mercado está associado a uma redução no valor da mensalidade a uma taxa de 3% ao ano.

Outra importante transformação ocorrida neste mercado, foi a formação dos grandes grupos educacionais. Por meio de um intenso movimento de consolidação, utilizando recursos originados da abertura de capital e da entrada de empresas internacionais no mercado brasileiro, alguns grupos que tinham atuação restrita ao seu local de origem se expandiram para quase todo o território nacional:

Anhanguera Educacional – até 2007, ano da abertura de capital, atuava em poucos campi no interior de São Paulo. Possui atualmente mais de 250 mil alunos em 54 campi em 6 estados

Estácio – era grande no Estado do Rio de Janeiro com 40 campi e 120 mil alunos. Após a abertura de capital, também em 2007, cresceu para mais de 210 mil alunos em 73 campi em 16 estados

Kroton – atuava em Belo Horizonte, vinculada ao colégio Pitágoras. Hoje atende 85 mil alunos em 40 campi, presentes em 10 estados.

Vai crescer mais

Apesar deste enorme impulso, ainda há espaço para crescimento.

Utilizando dados de mais de 200 países, o cruzamento da renda per capita com a penetração do ensino superior na população em idade escolar nos permite observar que o atual número de matrículas no Brasil deveria ser maior (veja no gráfico ao lado).

Estamos posicionados entre aqueles com a menor penetração e abaixo da curva de tendência para a atual faixa de renda per capita da nossa população.

Para os próximos anos, com a continuidade do desenvolvimento econômico e a conseqüente melhoria de renda da população somada ao maior acesso aos programas públicos e privados de financiamento estudantil, podemos projetar a continuidade do crescimento do número de matrículas. Utilizando-se a estimativa do FMI para a renda per capita no Brasil em 2015, a penetração do ensino superior, poderá atingir 51% da população em idade escolar – um crescimento de 4,7% ao ano a partir de 2008.

Com isso o Brasil atingiria 5,2 MM de alunos matriculados em faculdades privadas.

Hora de garimpar

Os grandes grupos educacionais, formados na última década, irão tirar maior proveito deste crescimento.

Sua escala reduz o impacto dos dois maiores problemas do setor: a inadimplência (próximo de 5% ao final de cada semestre com picos de 20% nos meses) e a evasão (50% ao longo dos anos de curso). Além disso, possibilita aos grandes grupos educacionais disporem de maior capacidade financeira para responder mais facilmente aos cenários de crescimento, realizando fortes investimentos em infra-estrutura, na abertura de novos cursos e em marketing, resultando na captura de maior quantidade de alunos.

Como resultado, enquanto uma faculdade média, com cerca de mil alunos, tem uma geração operacional de caixa da ordem de R$ 20/mês por aluno, uma universidade com 18 mil alunos gera cerca de R$ 35/mês por aluno.

Com poucos recursos disponíveis, as pequenas e médias instituições têm dificuldade investir na abertura de novos cursos – principal fator de atração de alunos – e, quando o fazem, acabam por aumentar a ociosidade nos últimos anos de curso, deteriorando ainda mais sua equação econômica.

Neste cenário, a consolidação tende a se acelerar, com grandes instituições adquirindo ou tomando o mercado das pequenas. Estima-se que até 2015 os vinte maiores grupos educacionais, que hoje concentram 35% das matrículas, sejam responsáveis por 50% dos alunos.

Quem serão os alvos destas aquisições?

De um universo de 1,6 mil grupos educacionais existentes hoje no Brasil, apenas 73 possuem mais de 10 mil alunos. Destes 73, apenas 9 ainda são independentes e podem ser adquiridos. Contudo, sete destes 9 ficam em São Paulo.

A continuidade da consolidação nacional de instituições de ensino, portanto, exigirá que os grandes grupos adquiram, desta vez, faculdades médias, com menos de 10 mil alunos.

Os 3 grandes desafios dessa consolidação

Consolidar grupos educacionais de médio porte apresenta três grandes desafios:

1. Processo de profissionalização de um grande número de unidades isoladas
Além de não fazer parte do dia-a-dia da atividade de ensino, o custo e a complexidade de profissionalizar, simultaneamente, a gestão de um grande número de unidades isoladas eleva o custo final e o risco das aquisições.

2. A grande instituição não tem, necessariamente, escala na nova região
As vantagens decorrentes da escala não se transferem de uma região para outra. São muitos os exemplos de unidades pertencentes a grandes grupos que, apesar de utilizar a marca e os recursos da sede, apresentam enormes dificuldades para ganharem escala em outro mercado. Se realizar aquisições isoladas e aleatórias, um grande grupo pode ver suas unidades remotas em igualdade – ou mesmo desvantagem – de custos, em relação às pequenas faculdades com que competirá no interior.

3. Obter ganhos de escala para mudar a equação econômica das pequenas unidades que atuam isoladamente
A redução de custos com pessoal corporativo é o principal beneficio que se tem ao consolidar uma nova unidade. No entanto eles representam somente 20% dos custos totais. Custos com a manutenção do campus, a ociosidade dos últimos anos de curso e inadimplência são eminentemente locais e precisarão ser endereçasdos, pelos grandes grupos, ao adquirirem pequenas unidades.

Apesar destes desafios, não há dúvida de que a formação de grandes grupos de ensino, de atuação nacional, continuará.

O que estes desafios apontam é que este será um processo sofisticado, exigindo criatividade e competência dos líderes dessas organizações.

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