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Consultoria de estratégia e liderança

Paul McCartney, o band leader

Sou beatlemaníaco. Destes que conhecem de cor a sequência das canções nos discos (sim: ouço discos). Destes que se submeteu à liderança comportamental que os Beatles exerceram sobre minha geração. Lembro de ter sido impedido de entrar na escola caso não cortasse o cabelo de maneira a ele não cobrisse minha orelha. Mas, não é desta liderança que quero escrever e nem da inconteste liderança observada no Morumbi quando 60 mil pessoas cantaram, sob o comando de Paul, a letra toda de Yesterday. Quero propor uma reflexão sobre a relação entre liderança e o fim dos Beatles.

Muito se fala sobre a influência de Yoko Ono para a dissolução da banda. Sem dúvida, a hoje viúva de John Lennon era e é uma chata, mas, na condição de especialista tenho outra visão para o rompimento dos quatro. Esta visão se aplica ao nome de minha coluna na Table Letters: Metáforas da Liderança.

Lennon foi o band leader até A Hard Days Night (aqui no Brasil, vertido lamentavelmente para “Os reis do ié, ié, ié”). Naquele LP (lembra?) dez das treze canções eram de John Lennon, contra três de Paul (George ficou de fora). Consta que Brian Epstein, o empresário homossexual da banda, era apaixonado enrustido por John Lennon e protegia o seu amor secreto.

Mas, em Help, o disco seguinte, Paul já apareceu com Yesterday, a primeira canção deles na qual os três outros membros da banda não tinham participação, substituídos que foram — inovação relevante para o rock da época — por um quarteto de cordas. McCartney começou a tirar as manguinhas de fora e se iniciava ali uma disputa pela liderança do grupo. Isto em um momento de transição, no momento em que eles, John e Paul, os compositores da banda, deixavam de ter como tema “meninos que amam meninas” e passaram a se inspirar em poetas sofisticados e a elaborar harmonias, melodias e arranjos revolucionários.

A tensão culmina em Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band, um disco concebido por Paul McCartney que tem duas canções em parceria com John Lennon e nada menos que oito canções só dele no álbum. A coisa explode com a morte de Brian Epstein, o empresário drogado que puxava a brasa para a sardinha de Lennon. Eles perderam, em uma analogia ao nosso mundo das organizações, o presidente da empresa e a briga entre marketing e vendas ficou insustentável sem quem decidisse quem tem razão.

Completa o quadro uma absoluta incompetência administrativa e de visão que leva os quatro bons músicos a se aventurarem em uma loja na qual não era condição necessária que os clientes pagassem, afinal, como dizia uma canção de Lennon, “yeah, yeah, you know, we all want to change the world”. Próximos da bancarrota, apesar do sucesso comercial dos discos, de novo Paul e John discordam sobre o nome da pessoa que iria colocar ordem no coreto e esta foi a gota d’água no copo já cheio que levou à dissolução dos Beatles.

Em resumo, um diagnóstico errado (a chatice indiscutível, porém não tão relevante para o caso, de Yoko Ono) e a falta de uma estrutura que conciliasse dois poderosos talentos levam ao fim de uma das melhores bandas de rock da história. Quem não gostaria de ter em sua empresa competências do nível que foram Lennon e McCartney como compositores e intérpretes? Pois, quem tiver um sonho destes (não, o sonho não terminou como declarou John Lennon em seu primeiro disco pós Beatles), que trate de se estruturar para administrar dos egos do tamanho do talento dos recursos sonhados.

A ironia da história é que, sem a disputa pelo poder, Paul McCartney se tornou, se não um compositor medíocre graças a exceções como Live and let die, Band on the run e My Love, um artista comum e pouco inspirado.

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  • Compositor medilcre e pouco inspirado apenas para você. E sao esses tipos de comentarios que me fazem lembrar que ainda há pessoas que o vêem como o Paul “Beatle” e nao o Paul artista que de fato ele é.