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Consultoria de estratégia e liderança

O meio é a mensagem

Na véspera da apresentação, Frank recebe a Fadinha Power Point...

Muitos executivos não atentaram para a importância da comunicação para o exercício da liderança. Afirmo isto porque trabalho dando suporte em apresentações.

Recentemente, preparei para um cliente uma apresentação sem PowerPoint. Usamos apenas alguns objetos para usar como analogia na apresentação. Tratava-se de um evento grande para mais de quinhentas pessoas e, por isto, a captação da imagem dos objetos por uma câmera era importante para a projeção na tela de maneira a todos acompanharem a idéia.

No ensaio ocorreu um fato significativo. Ao perceber que a abordagem seria esta, uma funcionária da agência encarregada pela produção do evento perguntou: “Não vai haver apresentação?

Ela queria perguntar se não haveria projeção em PowerPoint e este lapso mostra um vício de comunicação grave: confunde-se apresentação com PowerPoint. Por isto, muita energia é alocada na preparação do PowerPoint e pouco esforço se aloca na estruturação da mensagem de maneira às pessoas a quem a apresentação se destina entenderem e, não menos importante, aceitarem o que está sendo proposto.

Por trás deste fenômeno está o recurso de delegar a produção do PowerPoint para terceiros.  Várias pessoas se encarregam de coletar dados e, com eles, criarem o PowerPoint. Como são várias pessoas, o resultado é um frankstein sem critério e com pouca lógica. Na véspera da apresentação o apresentador é apresentado (uso a redundância apresentação / apresentador / apresentado propositalmente) ao que chamam de conteúdo. Geralmente, ele contesta alguns dados. Às pressas, o que for possível alterar será alterado e seja o que Deus quiser.

Minha tese é que apresentações são vistas como micos. Tanto para quem as faz como para quem as assiste. Para quem faz é mico porque não é fácil se apresentar em público. Spielberg diz que Indiana Jones tem medo de cobra porque este é o terceiro maior medo da humanidade. Perguntado sobre qual o maior medo, não vacila e diz que é se apresentar em público. Eu deduzo que o segundo medo seja o de morrer, o que coloca nosso assunto como pior que a morte.

Talvez seja difícil se apresentar por causa do pronome reflexivo “se” que antecede “apresentar”. O apresentador se expõe ( a si e ao assunto) e pouca gente está preparada para tal. A pseudo-solução é fugir à responsabilidade: delegar. Como nem sempre é possível delegar o ato de se apresentar, delega-se a preparação do arquivo de PowerPoint aos subordinados e delega-se ao PowerPoint a responsabilidade de conduzir a apresentação. O apresentador lê os bullet points e torce para o evento chegar ao fim. Quem assiste também não vê a hora de aquilo terminar, porque este modelo resulta em apresentações chatíssimas.

Assim, apresentação é mico para quem faz porque estamos tratando de uma fobia séria que envolve quase toda humanidade. A solução está em mudar o modelo mental e entender a apresentação como uma grande oportunidade que o destino dá para expor uma idéia para uma platéia que, desde que se prepare bem, estará disponível para participar, entender e, se a proposta for boa, aceitar o que se propõe.

No evento citado acima, no qual trocamos o apoio do PowerPoint por objetos, ficou claro que a preparação do apresentador foi fundamental para o bom andamento da transmissão da mensagem. O tempo dedicado à preparação, na fórmula usual, seria alocado na discussão de slide por slide do PowerPoint e, possivelmente, o resultado seria pior.

Marshall McLuhan não sabia que seria útil para um exemplo como este para reafirmar sua célebre frase: o meio é a mensagem.

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  • Ligia Godoi

    Vejo o artigo muito bom e também divertido. Mas tenho uma dúvida, já que sou daquelas que liga apresentação a powerpoint: quando se fala em objetos, são objetos reais, exemplo, uma caneta, um chapeu, seria isso?

  • Fran

    Olá Lígia,

    obrigado pelo interesse e pelo comentário. Vejamos a questão por outro prisma.

    Pense em um mágico. Antes de ele entrar em cena alguém do circo diz: “Senhoras e senhores, temos o prazer de apresentar o grande mágico Fulano de Tal!”. Reparou? O mágico vai se apresentar. E ele usará uma cartola, pombas e coelhos. A apresentação do mágico tem como apoio objetos e bichos.

    No caso que citei no post usamos dois objetos (uma jarra para fazer uma analogia com o mercado e um copo para simbolizar a empresa) e água como imagem do tamanho do mercado e da participação da empresa.

    Fran