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O futuro do livro didático

Todo começo de ano era sempre a mesma história: pegar na escola a lista de material e correr para a livraria para comprar os livros que iríamos utilizar durante aquele ano. E não eram poucos: Matemática, Português, Geografia, História, etc. A mala da escola ficava um peso só. E tínhamos que tratá-los com muito cuidado, para que nossos irmãos pudessem utilizá-los depois.

A partir de 1997, o governo federal passou a comprar e distribuir gratuitamente os livros didáticos para todos os alunos das redes pública municipal, estadual e federal, garantindo assim aos filhos das famílias de baixa renda o acesso ao livro didático.

Mas este cenário pode se modificar nos próximos anos.

A entrada das apostilas no ensino particular

Brasileiro como a jabuticaba, o sistema de ensino surgiu por uma combinação de fatores única do Brasil:

  • A explosão demográfica ocorrida nas décadas de 50 e 60
  • Universalização do ensino e correspondente stress sobre o custo e a capacidade de formar quadros de professores
  • Consequente queda da qualidade do professor
  • Emergência do “Vestibular Unificado” como marco de transição e aferimento da qualidade, no mínimo do ensino secundário

Esses fatores possibilitaram o surgimento de marcas de sucesso que, utilizando material didático próprio e padronização do processo em sala de aula, obtiveram sucesso comparativo no crivo de qualidade do vestibular.

Com o passar dos anos, o mesmo conceito de material apostilado e preparação de professores para executarem aulas padronizadas, se estendeu aos ensino médio e  fundamental. O passo seguinte foi natural: franqueamento dos sistemas de ensino. Atualmente 40% das escolas privadas já adotam algum sistema de ensino, em substituição ao livro didático.

Até mesmo escolas particulares grandes, de primeira linha, que podem selecionar e remunerar bem seus professores, muitas vezes desenvolvem seus próprios sistemas de ensino.

Escolas públicas: a nova fronteira dos sistemas de ensino

Nos últimos meses o mercado de sistemas de ensino foi protagonista de fortes movimentações.

A Abril Educação, líder no mercado de livros didático com as marcas Ática e Scipione, adquiriu o sistema Anglo por mais de R$ 880 milhões. A Editora Pearson, maior editor de livros didáticos do mundo, adquiriu o sistema COC também por mais de R$ 600 milhões e anunciou que deverá fechar o capital da empresa. No início de agosto o fundo de private equity Buffalo adquiriu o sistema Universitário e anunciou que fará novas aquisições.

Por que toda essa movimentação?

Depois de conquistar uma grande fatia do setor privado, a tendência dos sistemas de ensino é penetrar no setor público, onde o problema de qualidade do ensino é ainda mais grave. Com 42 milhões de alunos e 183 mil escolas, este é um mercado 8 vezes maior que o setor privado.

Atualmente, mais de 187 municípios do Estado de São Paulo (14% dos alunos da rede pública do estado) já adotam algum sistema com elevada taxa de aprovação de professores e profissionais de ensino.

O governo federal, por sua vez, aumentará o repasse de verba de educação para os estados e municípios que melhorarem o desempenho dos alunos da rede pública.

Esses dois efeitos – bons resultados dos sistemas de ensino e mais verba para escolas com bom desempenho – somados, fazem com que seja uma questão de tempo para que o Ministério da Educação ofereça a opção do sistema de ensino, em substituição ao livro didático que hoje fornece gratuitamente às escolas públicas.

Dependendo da velocidade de adoção, por parte dos municípios e estados, o mercado de livros didáticos pode sofrer um impacto de 50% em suas vendas, em menos de 5 anos. Daí o movimento de editoras e fundos de investimento, adquirindo empresas de sistemas de ensino.

O rápido avanço da tecnologia

Além do crescimento dos sistemas de ensino, o livro didático sofre ainda o impacto do avanço do livro eletrônico.

Escolas de vanguarda, nos EUA, já começam a doar suas bibliotecas, transformando-as em “cyber-cafes” em que os alunos retiram Kindles, ao invés de livros de papel.

Não coincidentemente, o primeiro leitor eletrônico fabricado em larga escala, no Brasil, foi lançado pelo maior player de sistemas de ensino, o Positivo.

Seu preço, R$ 749,00 ainda é elevado, para que possa ser usado como material didático mas, como toda nova tecnologia, seu custo irá cair rapidamente, a ponto de, em alguns anos, o equipamento se pagar pela diferença de preço entre o livro digital e o de papel.

O mercado de livros universitários, onde os livros custam mais caro, será aquele em que essa diferença de preços, entre o e-book e o livro de papel viabilizará mais rápido o leitor eletrônico. Em seguida virão os sistemas de ensino, hoje obrigados a imprimir e distribuir uma enorme quantidade de apostilas – o e-book não dispensa apenas a impressão, mas também a distribuição física da apostila e do livro.

Por fim, os livros didáticos das escolas também deverão iniciar sua migração gradual para sua nova “encarnação” (ou “encadernação”) – o meio eletrônico.

Uma metamorfose ambulante

O mercado editorial não ficará parado, assistindo passivamente o rápido avanço dos sistemas de ensino e o não-tão-rápido, do livro digital. Muito antes de migrar para a “encadernação digital” o produto livro didático, para manter-se competitivo, mudará radicalmente:

  • Ele deverá se aproximar do modelo dos sistemas de ensino: coleções multi-disciplinares substituirão boa parte dos títulos isolados atuais, cujos autores – e conteúdos! – que nunca se falam. Coleções oferecerão ao aluno um diálogo inteligente, não só entre matérias mas também ao longo das séries. (Quem sabe, então, não teremos mais que ver nossos filhos fazendo trabalhos sobre o ciclo da água ou sobre os continentes, ano após ano…).
  • Ele será “desconstruído”: escolas e professores poderão montar e encomendar seus livros customizados, a partir de uma enorme oferta de blocos de conteúdo. O conteúdo didático, em algumas décadas, se assemelhará a blocos de Lego®; os livros serão aquilo que professores e orientadores pedagógicos decidirem montar para seus alunos.
  • Tal como os sistemas de ensino agregam serviços à escola, as editoras também oferecerão serviços similares: preparação e suporte aos professores; provas padronizadas entre escolas (e comparabilidade de resultados); conteúdo complementar online, inclusive audio-visual.

Num cenário como este, o estudante continuará ler e a carregar livros em sua mala mas, para o editor, o “produto livro” terá se transformado em alguma coisa irreconhecível, pelos padrões atuais.

Para saber mais:
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