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Consultoria de estratégia e liderança

O Erro Fatal de Ran

Na sala onde aguardo para falar com o CEO, leio em um grande poster na parede, um trecho do poema épico argentino Martín Fierro:

Los hermanos sean unidos,                                 [Os irmãos sejam unidos]
Porque ésa es la ley primera.                          [Porque essa é a lei primeira]
Tengan unión verdadera                               [Tenham união verdadeira]
En cualquier tiempo que sea-                         [Em qualquer tempo que seja]
Porque si entre ellos pelean                           [Porque se brigam entre si]
Los devoran los de afuera.                             [Os de fora lhes devoram]

—José Hernández, Martín Fierro, segunda parte, Canto 32.

Martín Fierro está para a Argentina, mais ou menos como Quixote está para a Espanha e Macunaíma para o Brasil − é mais um anti-herói, uma caricatura de algumas características mais marcantes do seu povo, do que um herói. O escritor chileno Roberto Bolaño escreveu que Martín Fierro “é uma história sobre valor, não uma história sobre inteligência, muito menos sobre moral”*.

Não é de se estranhar, portanto, que os conselhos de Fierro a seus filhos não sejam exemplos de sabedoria. Na verdade, esse conselho em particular é um exemplo do que eu chamo de O Erro Fatal de Ran.

No filme ‘Ran’, de Akira Kurosawa − uma transcrição para o Japão feudal da tragédia ‘Rei Lear’, de Shakespeare − um rei poderoso, Ran, reune seus três filhos e mostra que uma flecha pode ser facilmente quebrada, mas três flechas unidas são inquebráveis. Conclui essencialmente com o mesmo conselho de Martín Fierro: que os irmãos nunca briguem. E essa é a ruína de Ran e de seus três filhos.

Porque o conselho de Ran é impossível de ser seguido. Irmãos, como quaisquer seres humanos, conflitam. Não há como impedir que isso aconteça.

Ao invés de um conselho impraticável, Ran teria feito melhor se investisse esforços em educar seus filhos para o conflito:

  • Como dialogar sobre discordâncias e interesses opostos, sem resvalar para o conflito
  • Quando, mesmo assim, conflitarem, como controlar suas emoções, para que não ocorram ataques e agressões verbais
  • Quando, mesmo assim, ocorrerem agressões durante um conflito, como cada um e o restante da família podem recuperar rapidamente as relações de confiança e apreço

Esse aprendizado, ao qual poucas famílias se dedicam, é muito mais útil, saudável e realista do que exortações a “não conflitar”. Porque quando diferenças de opinião e sentimentos de injustiça não encontram sua válvula natural de escape, em conflitos controlados, eles vão crescendo, transformando-se em rancor e corroendo as relações da família, muito mais rápido e destrutivamente do que qualquer “de fora que os devore”. A família se encarrega de devorar-se por dentro. Essa é a história e a tragédia de Ran e de Lear.

E de tantas famílias-empresárias. Semelhantes a reinos, elas precisam transitar do governo de um rei para o dos príncipes. Mais do que as outras, as famílias-empresárias precisam cultivar a disciplina de conflitar saudavelmente, ao invés de tentar esconder e adiar o conflito.

O argentino Fierro, o ingles Lear, o japones Ran são, para seus povos, ícones de insensatez que leva a erros de julgamento, que resultam em tragédia. Famílias-empresárias e seus líderes podem aprender muito com seus erros.

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* Derivas de la pesada in Robero Bolaño, ‘Entre Parentesis‘; Ed. Anagrama, Barcelona, 2005.

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