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Consultoria de estratégia e liderança

Mais um passo na consolidação

Xadrez de Telecom

A disputa pela liderança em telecom

Como num jogo de xadrez, não se faz um movimento estratégico em uma empresa sem pensar nos movimentos futuros. O dinâmico mundo da telefonia, TV por assinatura e Internet só comprova a importância de um planejamento de longo prazo. Isso, claro, sem descuidar da busca incessante por melhorias operacionais no curto prazo.

Histórico

A consolidação do setor de telecomunicações no Brasil vem evoluindo há anos. Havia literalmente milhares de pequenas empresas no início da década de 70. O governo militar criou a Telebrás, consolidou o setor em 28 empresas estatais (as teles e a Embratel) e algumas empresas menores (privadas ou municipais).

Após um primeiro estágio positivo de unificação e padronização, o Governo não dispunha de recursos suficientes para financiar o crescimento, e o Brasil viveu um apagão (mais propriamente uma escassez) de telefonia, em que se pagava até 10 mil dólares pelo direito a uma linha telefônica.

Com a privatização em 1998, surgiram 9 operadoras de celular e 4 de telefonia fixa agrupando as empresas do antigo sistema Telebrás. Nessa época, o mundo ainda não era convergente: havia as empresas fixas, as móveis e as centenas de operadoras de TV por assinatura (via cabo coaxial, rádio MMDS ou satélite). Internet banda larga? O que era isso? O mundo, quatro anos após o início da Internet comercial, vivia de acesso discado (lembram do barulho do modem?).

Dois grupos conseguiram ver e capitalizar a esperada convergência de serviços, apenas uma teoria na época, e iniciaram um movimento de aquisições e investimentos agressivos na região. O que vemos hoje é resultado de estratégias de longo prazo, desenhadas há mais de 10 anos!

Carlos Slim aproveitou a crise do México, adquiriu a monopolista fixa Telmex, transformou a Telcel na líder inconteste no seu país, e fez aquisições agressivas por toda a América Latina. Com cerca de 200 milhões de assinantes celulares na América Móvil, hoje lidera o setor na região. De quebra, se tornou dono de uma das maiores fortunas do mundo.

A Telefonica veio com uma versão moderna de colonização, buscando o domínio das telecomunicações na região. Entrou na privatização Argentina, adquiriu a CRT no Rio Grande do Sul, comprou empresas de telefonica celular em vários países (incluindo a Telerj Celular e a Telebahia Celular) e as operações de telefonica celular da BellSouth na região.

No Brasil

O Grupo Carso, de Carlos Slim, consolidou várias operações móveis, principalmente de Banda B, na operadora Claro. Então nome de um serviço de sua operação no Rio Grande do Sul,  hoje Claro é também a marca das operações da América Móvil em quase todos os países, com a grande exceção do México que permanece usando a marca Telcel. Adquiriu ainda a Embratel da MCI e uma participação de 48% na Net.

A Telefonica, após comprar a Telesp fixa e duas operações de banda A no Rio, Bahia e Sergipe, iniciou um movimento paralelo ao da Portugal Telecom, que adquiriu a Telesp Celular, para criar a Vivo, que futuramente adquiriu a Telemig Celular, uma das últimas operadoras independentes.

O casamento entre Telefonica e PT na Brasilcel, controladora da Vivo, terminou em julho desse ano.

O Movimento Mais Recente

A Embratel anunciou hoje uma oferta pelas ações preferenciais da Net Serviços, a líder em TV por assinatura no Brasil. Se todos acionistas aderirem, haverá um desembolso de R$ 4,6 bilhões.

Esse é mais um movimento da disputa pela liderança na América Latina entre o grupo espanhol Telefonica e o mexicano Grupo Carso. O Grupo Carso controla a América Móvil, a maior operadora celular da América Latina, e a Embratel, com sua participação na Net.

Apesar da legislação brasileira vedar que o controle de empresas de TV por assinatura seja estrangeiro, o movimento anunciado no dia 5 de agosto pode ser mais um passo para que Slim adquira o capital total da Net, assim que a legislação permitir.

A Telefonica comprou há uma semana a participação da Portugal Telecom na Vivo para integrar suas operações fixa e móvel, como já fez em todo o restante do continente.

Teríamos então três grandes grupos disputando o cobiçado mercado de telecomunicações, entretenimento, TV por assinatura e Internet Banda Larga no Brasil: a espanhola Telefonica, o mexicano Grupo Carso (Embratel, Net, Claro) e a agora lusobrasileira Oi (AG Telecom, La Fonte, Portugal Telecom, BNDES e fundos de pensão).

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  • Mauro Mello

    Excelente artigo, Michel!

    Duas perguntas sobre convergência:

    Eu suponho que a integração com a telefonia movel é essencial para as operadoras fixas, devido à evasão de “minutos”, de linhas fixas para celulares. A oferta de banda larga, por sua vez, compensa em parte as perdas para telefonia IP.

    Mas e o cabo/pay-TV? Somente a Telefonica fez um movimento (compra da TVA e do conteúdo Globosat) para fortalecer sua oferta de audio-visual e combater o avanço da Net. Como você vê a Oi/PT combatendo a oferta quádrupla de Net/Claro/Telmex em sua região?

    Segunda pergunta: o único full player nacional, hoje, é Net/Claro/Telmex, não? Isso é uma vantagem ou desvantagem? Telefonica/Vivo e Oi/PT ganham ou perdem, estando fora da telefonia fixa (e do broadband e da pay-TV) na região uma da outra?

  • Michel Hannas

    Entre as motivações para a convergência fixo-móvel, está evitar a perda de receita com a migração de tráfego das linhas fixas para as linhas móveis. A Nokia, por exemplo, vem evangelizando o mundo nessa linha desde a década de 90. O lema deles era “Voice goes mobile”. Evoluiram para “Life goes mobile”.

    A oferta de banda larga compensa a perda de receita com acesso discado à Internet, limita a perda com VoIP (Skype por exemplo), e apresenta uma das poucas oportunidades para crescimento de receita para as operadoras de telefonia fixa.

    Na TV por assinatura, a lógica é oferecer bundles (pacotes) que reduzam o churn aumente a receita por cliente. A tecnologia já permite a convergência, ou seja, no mesmo par de fios ou na mesma fibra óptica podem-se transmitir voz, vídeo e conexões à Internet em alta velocidade.

    No Brasil todos estão se posicionando para isso: a Telefonica com a Vivo e a TVA, a PT e a Oi possuem a Way TV, a Claro tem a Embratel e uma parcela significativa da Net.

    A única exceção é a TIM, que possui uma plataforma própria, mas isolada para voz e wireless Internet.