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Consultoria de estratégia e liderança

Dunga – o líder rancoroso

Impossível, quando se escreve sobre liderança, não pensar no Dunga.

Fiel ao meu método de buscar a essência da mensagem, penso em um único adjetivo para a liderança de Dunga: rancoroso.

O rancor deve vir da chamada “era Dunga” quando o atual técnico era jogador e rotulado como brucutu, como um volante destruidor e pouco construtivo. Dunga era valente e dedicado, mas não exatamente um craque. Na era Dunga ganhamos uma Copa mas, dizia-se, jogamos feio e a maior característica do futebol brasileiro (e do Brasil) é a combinação de alegria e beleza. Refrescando a memória: Dunga, o capitão rancoroso, xingou a taça ao levantá-la.

Finda a era Dunga, nosso país chegou como franco favorito à Copa de 2006, com um time de craques que jogava bonito. Havia no time jogadores alegres como aquele Ronaldinho Gaúcho, que tocava pandeiro; aquele Ronaldo Fenômeno que, embora gordo, se casou com Daniela Cicarelli; aquele Cafu, que dava cambalhotas; aquele Roberto Carlos, que preferiu a elegância de uma meia esticada a marcar o Henry. A alegria deu em gandaia, desorganização, falta de comprometimento e perdemos o campeonato.

Perdido o campeonato escolheu-se um líder que evitasse os erros de 2006. Mas não perceberam que, junto com o disciplinador, vinha o rancoroso.

Você já conheceu ou trabalhou com um líder rancoroso?

Eis algumas características do líder rancoroso, que mais me chamam a atenção:

1. Despreza o trabalho do antecessor a ponto de, cegamente, propor-se a fazer radicalmente o oposto do que foi feito. Assim, à gandaia de 2006 se contrapôs um grupo evangélico, trancado em hotéis e hostil à imprensa.

2. Precisa justificar o rancor e, por isso:

a. Cria um grupo à sua imagem e semelhança com volantes (líderes) brucutus. A Espanha, não por acaso campeã do mundo, empregou volantes que sabem jogar (conhecem suas funções).
b. Advoga valores, somente porque foram criticados no passado (alimentando, assim, o rancor). Acusado de jogar feio, Dunga elegeu jogar bonito como um contra-valor e deixou de fora jogadores como Neymar e Ganso.
c. Foca no que deu certo no passado. Como foi campeão, Dunga acredita que o importante é o resultado e não jogar bem. Como os tempos são outros, o melhor goleiro do mundo toma um frango, um adversário baixinho faz um gol de cabeça e, como o resultado não vem, toda a estratégia vai por água abaixo.

3. Constrói o time em torno do rancor. Dunga esmurra o banco de reservas e vocifera contra o que julga serem erros dos juizes. Como esperar que o Felipe Melo não pisoteie o Robben? Como transmitir o necessário equilíbrio emocional ao time quando, por exemplo, o adversário vira o placar do jogo?

4. Precisa mostrar que estava certo. O líder vira protagonista, quando deveria ser parte do time. Dá um show na área técnica; aparece na televisão, bravo e valente; gosta disso e cria-se um ciclo vicioso de auto-validação e perda de foco nos objetivos do time.

5. Desconsidera o próprio espírito de time que tenta construir. Faz propaganda da cerveja concorrente da patrocinadora oficial do time – supostamente porque valoriza a imagem de “guerreiro” (mais compatível com o grupo de 2006 do que com Kaká e Jorginho orando) – sem considerar o dano que possa estar causando ao espírito de time.

Hoje se fala em renovação. Interessante! De novo se joga fora um trabalho e se começa do zero.

Rumo ao hexa, Brasil!

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