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Consultoria de estratégia e liderança

Como aprendi Economia – parte 2

Michal Kalecki

Quando fui trabalhar no planejamento corporativo do Grupo Ultra, em 1986, a Corporação do Grupo era um caldeirão de pensamento econômico e empresarial.

O que o setor de telecomunicações foi, na primeira década deste século, o setor petroquímico foi na década de 1980: enormes mudanças em curso, consultores de estratégia para todo lado, movimentações colossais (para a época) de capitais, grandes grupos se articulando e competindo pela predominância no setor…

Quem venceu esse enorme xadrez foi a Odebrecht mas, em 1986, o Grupo Ultra era um sério concorrente. E, se dependesse da qualidade e erudição do pensamento econômico de sua liderança, teria ganho o jogo.

Kalé o que?!

Tão importante quanto usar ternos bonitos em departamentos de publicidade ou bancos de investimento, para trabalhar na área de planejamento corporativo do Grupo Ultra era importante estar na última moda do pensamento econômico, especialmente em teorias desenvolvimentistas.

Você era definitivamente um caipira se, por exemplo, pronunciasse o nome do economista polonês Michal Kalecki como “Kaléqui” – o correto é “Kalésqui”, com “s”.

Se você leu meu primeiro artigo “Como aprendi Economia – Parte 1“, já deve saber que meu conhecimento econômico era, nessa época, inteiramente prático e voltado para ciclos econômicos e mercados financeiros. Teorias de desenvolvimento, de emprego e renda, Industrial Economics, teorias de inflação… nada disso sequer havia piscado no meu radar.

Eu precisava, definitivamente, de ternos novos.

O pragmatismo continua

A boutique em que encontrei os “ternos” de que precisava chamava-se Editora HUCITEC.

A HUCITEC publicava naquela época, sob a direção do economista da UNICAMP (falecido no ano passado) Tamás Szmrecsányi, a excelente coleção Economia & Planejamento.

A coleção dava ênfase especial a economistas marxistas brasileiros e europeus e a obras que descreviam a dinâmica econômica e empresarial de setores críticos da economia brasileira.

Eu comecei pelo excelente “Petroquímica e Tecnoburocracia”, de Marcus Alban Suarez e, da noite para o dia, eu era um “insider” da batalha que se desenrolava no setor petroquímico brasileiro, capaz de dialogar confortavelmente com os verdadeiros players do jogo, com que trabalhava. Até hoje, esta foi uma das melhores relações “informação de uso imediato por página” que experimentei em todas as minhas leituras.

Animado, comprei e devorei “Estruturas de Mercado em Oligopólio”, baseado na tese recém-defendida de Mário Possas, na UNICAMP, e amplamente lido e discutido pelas “cabeças pensante” do Grupo Ultra. Subitamente a lógica dos mercados, típica do Brasil (e diferente da americana, até então minha única referência conceitual) ficou clara para mim.

The big picture

Finalmente eu cheguei aos dois volumes da coleção da HUCITEC que me revelaram a perspectiva macro-econômica: “Recursos Ociosos e Política Econômica” de Ignácio Rangel e “Crescimento e Ciclo das Economias Capitalistas”, de Michal Kalecki.

Esses são economistas marxistas, relativamente fora do mainstream, mesmo da corrente marxista da Economia. Alguém já disse que não há ninguém melhor para explicar a economia capitalista do que um economista marxista (aliás, começando por Marx) e, pela minha experiêcia, tenho que concordar.

Ignácio Rangel foi o idealizador e primeiro Presidente do BNDES, criado no breve goveno João Goulart. Seu pensamento sobre o que provoca os ciclos de desenvolvimento e estagnação no Brasil, que eu saiba, é absolutamente original e único no mundo. E, até onde eu tenho observado, continua inteiramente verdadeiro. A leitura de “Recursos Ociosos” me propiciou uma percepção, na minha opinião, privilegiada do funcionamento da economia brasileira, até hoje.

The big big picture

E, finalmente, Kalecki.

O que Rangel fez pelo meu entendimento da economia brasileira, Kalecki fez pelo meu entendimento da economia ocidental. O que exatamente é o PIB, que processo/dinâmica ele mede; a estratificação inexorável da renda; o papel dos banqueiros, do comércio exterior, da política cambial… tudo isso eu entendi de maneira clara e relativamente simples, lendo 15 artigos curtos, em um livro de menos de 200 páginas.

Lembro de uma rápida demonstração de uma equaçãozinha, sobre cuja conclusão Kalecki observa que onde os trabalhadors gastam o que ganham, os empresários ganham o que gastam. Em outras palavras: em economias onde a renda do trabalhador não é suficiente para gerar poupança significativa (caso do Brasil, até bem pouco tempo atrás), a soma do lucro de todas as empresas é igual ao total do investimento das empresas e do governo (este basicamente investindo o imposto que as empresas pagaram).

Conclusões, a meu ver, mirabolantes como esta, através de modelagens quase triviais, me deixaram fascinado pela disciplina de macroeconomia e me deram clareza de entendimento do que se passa na economia a nossa volta e no mundo.

Mais tarde eu me dediquei a estudar macroeconomia um pouco mais formalmente, utilizando os grandes manuais da matéria e, francamente, o que aprendi naqueles compêndios enormes acrescentou muito pouco ao que abocanhei, de uma colherada só, no livrinho da HUCITEC.

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