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A Sangue Frio no Século 21

Poucos livros demandaram tanto trabalho e proporcionaram tanto sucesso a seu autor quanto “A Sangue Frio“, de Truman Capote, publicado em 1966.

“A Sangue Frio” é a narrativa de um caso real de homicídio, ocorrido numa pequena localidade no longínquo interior do Kansas. Não é jornalismo, mas também não é literatura pura. É algo no meio e foi concebido intencionalmente assim por seu autor.

Além de consumir literalmente anos de viagens até a localidade, para entrevistar moradores e, posteriormente, os próprios assassinos, Capote viveu uma estranha provação: a longa espera pela execução dos criminosos. Foram cinco anos de espera, enquanto os criminosos, em death row, aguardavam o cumprimento de sua sentença.

O autor recusou-se a completar seu livro, sem narrar o necessário final da história – a punição dos culpados. Sem isso, pensava, a história não estaria completa e Capote desejava que “A Sangue Frio” fosse sua obra máxima (como, de fato, foi).

Será que a insistência de Capote, por esperar o final de sua história, seria sustentável hoje?

Seria uma boa idéia?

Nosso admirável tempo novo

O que um editor de hoje, comercialmente astuto, recomendaria a Capote? Provavelmente algo na seguinte linha:

  1. Não aguardar a execução; pelo contrário: publicar o livro, com o final natural em aberto. Com a promoção e possível sucesso do livro, o crime atrairia atenção da mídia, cross-promovendo o livro.
  2. Quando, finalmente, os criminosos fossem executados: nova cobertura da mídia (“Assassinos de A Sangue Frio executados no Kansas”). Nessa ocasião o livro teria, naturalmente, um rebound de venda.
  3. Nesse ponto Capote teria duas opções: publicar um livro novo, com a narrativa do final da história ou publicar uma nova edição de A Sangue Frio, com novos capítulos finais. Nessa segunda opção a edição original do livro seria virtualmente sucateada, obrigando os fãs a recomprarem o livro. Mais ou menos como George Lucas e a Disney fazem, periodicamente, com seus filmes.

Amanhã ninguém sabe o que será

Observe, leitor, que a possibilidade dessa “articulação de conteúdos”, tanto no tempo (“lance o livro agora e depois”) como entre mídias (“use o diálogo com a mídia jornalística para promover o livro e vice-versa”), não depende de nenhuma tecnologia nova.

É claro que nosso editor fictício, super-agressivo comercialmente, poderia ter muitas idéias do que fazer com a tecnologia digital. Poderia, por exemplo, oferecer o primeiro livro eletrônico “anexável a outro”: “clique para comprar a última parte de A Sangue Frio e ela se incorporará à sua edição original” (e tem quem ache que o papel do editor vai desaparecer, no século 21…).

Mas a convergência de mídias, apesar de muito facilitada pela tecnologia digital, nasceu de uma mudança radical na forma como nós nos relacionamos com conteúdos de diferentes meios.

Fomos nós que, nos 45 anos desde o lançamento do livro de Capote, derrubamos as barreiras mentais entre as mídias, criando o espaço para a tecnologia oferecer seu universo de possibilidades, que mal começamos a explorar.

A Sangue Frio, misturando matéria jornalística e literatura, certamente contribuiu para o início desse processo.

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