Table Partners

Consultoria de estratégia e liderança

Óbvio!

* Por Francisco Papaterra, sócio-fundador da Agência Abre Aspas

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Caetano Veloso é um compositor citado pelos textos maravilhosos dele. Um exemplo é “de perto ninguém é normal”. Outro é “a dor e a delícia de ser quem se é”. Eu gosto de “Um índio”, uma canção sobre um ser que “descerá de uma estrela colorida e brilhante” e que nos revelará algo. Na última estrofe da poesia diz Caetano

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio.

A poesia de “Um índio” faz perceber que há coisas ocultas que, quando reveladas, se mostram óbvias. O exemplo clássico é o ovo de Colombo. É imediato: de oculto, escondido, não percebido, obscuro, misterioso, exótico passa a ser óbvio. Não há etapa intermediária, não há gradação. A maneira de colocar o ovo em pé estava oculta, foi revelada, virou óbvia.

Assim foi meu contato com a premissa da TABLE PARTNERS. De oculta a óbvia. Imediata.

A premissa é que nas relações colecionam-se as vulnerabilidades dos respectivos pares. Por exemplo, um casal.

Para ficar em um único adjetivo para cada um, o marido é mal humorado e mulher é paranóica. Imagine este casal tendo que decidir sobre o horário que a filha adolescente terá que voltar da balada para casa. A mãe, paranóica que é, quer que seja muito cedo. O pai diz que a esposa está exagerando, que o local é seguro, que a menina merece se divertir. Além disto, ela vai voltar com os pais da melhor amiga e que estes pais são conhecidos de nosso casal e absolutamente confiáveis. A mãe chora e diz que o marido é mal humorado. Repare: o mau humor não é o assunto e, principalmente, o marido nem sequer está mal humorado. O assunto é o horário de saída da filha de uma balada, mas a mãe desloca o foco da conversa para o comportamento habitual do marido. O resultado é que nada se decide. É bem capaz de menina não ir à balada, embora mereça e não haja risco nisso.

Este fenômeno ocorre nas organizações: diretores se defendendo através da vulnerabilidade dos outros e sujeira colocada debaixo do tapete. É o chamado impasse. Os assuntos importantes saem da mesa de reunião e passam para o cafezinho, para reuniões menores, para o subentendido. Na mesa de reuniões sobram monólogos.

Por isto, o nome Table Partners. É na mesa (table) de reunião que os sócios (partners) devem decidir os rumos da empresa.

Na metáfora do casal poderíamos adaptar Table Partners para Couch Couple. Há de haver um sofá onde o casal já deveria, anos atrás, ter tratado o problema do mau humor do marido. No mesmo sofá seria debatido agora apenas o horário de saída da filha da balada.

Um exemplo recente e pertinente da premissa da Table Partners aconteceu na política brasileira. O PT, no poder a partir de um discurso ético, ficou acuado com a denúncia do Roberto Jefferson sobre o mensalão. Parecia que o Lula não seria re-eleito. Mas, ato contínuo, se descobriu que o esquema começou com Eduardo Azeredo, do PSDB.  O PSDB perdeu o discurso, perdeu a eleição. Recentemente José Roberto Arruda tirou o discurso da moralidade da boca do DEM. Na próxima eleição presidencial corrupção não será assunto. Todos os agentes estão vulneráveis.

Table Partners neles.

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